quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A MENINA E O AMANHÃ >> Carla Dias >>

Falava ao telefone com a minha sobrinha que estava num daqueles dias em que criança traça futuro, sabe? Ela me contou, com todos os detalhes, quem pretendia ser – e o que faria - quando crescesse.

Dessa vez ela seria somente uma mulher adulta que compraria uma casa bem grande onde ela coubesse com o marido, o filho, a avó... Ela achou melhor que a avó (minha mãe) morasse com ela, porque, nas palavras dela “não fica esse sofrimento de ter que tomar ônibus e ir de lá pra cá o tempo todo”. Sim... Elas são muito unidas.

Pensei em como gosto de andar de ônibus. Claro que, aos quase quarenta anos de idade, num momento em que todos sabem tudo, eu não ter aprendido a dirigir parece meio indigesto... Mas para os outros. Não há quem possa com uma viagem de ônibus e o mp3 tocando as mais-mais da sua vida. A seleção de sentimentos.

Ela continuou falando, na verdade, estava mais para um monólogo. Disse que eu poderia morar lá também, mas que cobraria um “aluguel” de menos de 1 real, só para pagar as contas de água, luz, telefone... E que com os 1.000 reais que ganharia – ela não contou como – compraria um carro maravilhoso para a avó.

Também fui criança que prometeu a adultos. Quando moleca, disse a todos da família enorme que tenho que ganharia bastante dinheiro e os tiraria de onde morávamos na época, que teríamos água encanada, telefone, ônibus que nos levasse até quase a porta de casa. Crianças não deveriam fazer promessas, porque mesmo com as melhores das intenções e trabalho duro, pode ser que não dê para pagar a promessa. E de uma criança esperançosa podemos nos transformar em adultos frustrados por não termos alcançado o futuro que desejamos aos que amamos.

Não consegui cumprir a promessa infante, mas fiz de tudo para dar o menos de trabalho possível à minha família. Ainda hoje, quando as ruas do bairro já foram asfaltadas, há água encanada nas casas e quase todos conseguem ao menos pagar as contas do mês por esforço próprio, essa minha promessa aparece nas conversas, como uma piada ressentida. Acho que, no fundo, eles acreditaram na criança que fui mais do que neles mesmos.

Quando consegui uma brecha, disse a ela que não deveria pensar nessas coisas. “Criança não tem de fazer contas, lindinha”. Entre uma frase e outra minha, ela lançava um profundo “Ah, tia... Mas...”. E eu insistia: “Você tem de estudar, ler bastante que é bom, brincar, ser feliz. Você é muito pequena pra pensar nisso.”

Foi então que ela, impaciente e levemente frustrada por eu ter cortado a conversa adulta, meio chorosa até, disse o seguinte:

“Eu não entendo! Pra atravessar a rua sozinha vocês dizem que eu sou muito pequena, mas se eu faço alguma travessura, vocês dizem que eu sou grande! Não entendo mais nada!”

Vindo de uma menina de nove anos de idade, a constatação pode provocar gargalhada – que foi o caso, só que a engoli -, mas também assusta. Ela não estava errada na constatação, porque restava à adulta que a ouvia explicar, de um jeito que se entendesse, que a vida é assim em qualquer idade, que há o que podemos fazer/viver e o que não é possível. Acontece que a adulta disponível – eu – ficou sem palavras e, quando voltou à conversa...

“Mas é assim mesmo... Olha, a tia que tem muito mais idade que você, também pode isso e não pode aquilo.”

Quando ela sente que está sendo enfrentada, a voz fica rascante, os falsetes se apresentam. E assim, nesse frenesi, ela me disse: “Então agora vou ter de pensar como se tivesse... Quantos anos você tem, tia?” “Trinta e oito...”, respondi. “Tia, vou ter de pensar como se tivesse 38 anos de idade?”

Nem pensem que ela gosta mais de fazer contas e pensar um futuro com marido e filhos e casa do que ler um bom gibi. Lembro-me dela quando lia apenas as feições das figuras do gibi, antes de aprender a ler. Também adora ouvir uma história inventada na hora. Às vezes me leva à exaustão de tanta variedade que pede num mesmo dia. Inventar cansa.

Talvez ela cresça, conquiste um bom marido e tenha um belo filho, e minha mãe vá morar com ela. Até lá, ela saberá que com 1 real de “aluguel”, cobrado de quem morar com ela, não pagará as contas da casa, assim como um carro que custa 1.000 reais não é lá grande coisa, então vale mais a pena andar de ônibus e metrô. Até lá, talvez muitos de nós, adultos, possamos compreender que, às vezes temos de pensar como uma menina de nove anos... Com a mesma bondade que ela é capaz de ter, apesar dos melindres e da falta de conhecimento do real valor das coisas, e da fragilidade das promessas.

E deixo as palavras de Rubem Alves para quem quiser cultivá-las em seus jardins: “A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.”

Imagem: A little girl carrying flowers / Henry Raeburn


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4 comentários:

Kira disse...

Querida,

Que coisa mais docinho seu texto.
Me encantou, parabéns!

Abraço.
Kira Santana

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tia Carla, coisa boa é saber dessas suas conversas deliciosas com suas sobrinhas.

Robson - Botafogo / RJ disse...

Pelo que estou notando, meu caro amigo, Leonardo Marona, você está com uma baita dor de cotovelos. Um abraço

Carla Dias disse...

Kira... Obrigada por parar e ler, e também por se permitir encantar.

Eduardo... Ser tia é uma das coisas mais interessantes quando se trata de incitar a imaginação. Pena que eles crescem... Nós crescemos, né? Né?

Robson... Acho que você errou de endereço : ) O Leonardo pode estar com dor de cotovelos, mas é na crônica acima.