quinta-feira, 3 de julho de 2014

NÃO HÁ VAGAS >> Fernanda Pinho


Já vi gente dizendo sobre mim que sou uma pessoa com facilidade para fazer amigos. Para ser bem sincera, eu não acho. O que também dizem sobre mim, e isso sim procede, é que tenho sorte. Ocorre então que tive a sorte de, ao longo da vida, me aproximar de pessoas com sérias intenções de amizade sincera. E isso explica o considerável número de amigos de anos que trago comigo.

Ok. Também não preciso ser tão modesta assim. Alguma parcela de culpa eu tenho. Se a facilidade para fazer amigos não é dos meus maiores talentos, certamente mantê-los está entre as coisas que sei fazer bem. Zelo muito pelas minhas amizades. Procuro estar sempre presente — fisicamente ou não, sou honesta em minhas relações, não dou margem para mal-entendido, não meço esforços, não julgo, não minto, sou clara, tento ser compreensiva e estou sempre à disposição. Nem sempre é fácil. Eu, e todos os meus amigos, temos uma vida atribulada. Mas quem quer, dá um jeito. Acredito e pratico.

Entre meus melhores amigos, tem de tudo: gente que veio do colégio, gente que veio da faculdade, gente que veio por causa de livros, gente que veio por causa de blogs, gente que veio por causa de bandas, gente que veio através de outros amigos. E já faz algum tempo que não vem ninguém mais. É importante considerar o fato de eu não sair tanto quanto antigamente, não estar estudando e trabalhar em casa. Isso minimiza em 90% a possibilidade de conhecer gente nova. Mas o principal é que realmente não sinto vontade de fazer novos amigos. Ou melhor, não sinto essa necessidade. Estou muito satisfeita com os meus, mas não é só isso. É que é difícil.

Depois de uma certa idade (e nasceram mais 5 fios de cabelo branco só por eu ter escritos essas cinco palavrinhas) nos tornamos tão mais criteriosos. Não é como no começo dos anos 90 (quando fiz as primeiras amizades que ainda tenho hoje), cujo o único critério de aproximação foi o fato de termos caído na mesma sala. Agora, para uma pessoa entrar na minha vida ela precisa ter muita afinidade comigo, ter muito a acrescentar e, principalmente, ser muito tolerante com todas as minhas chatices e respeitar meu espaço. 

O que é uma pena. Tenho amigas que, definitivamente, têm estilos de vida e pensamentos superdiferentes dos meus. Se eu as conhecesse hoje, dificilmente seríamos amigas. Mas nossa amizade foi cunhada quando não éramos tão irritantes e irritáveis.  Foi plantada num terreno puro e livre de preconceitos. Por isso vingou.  E por isso eu sei que são pessoas com quem posso contar sempre, embora tão diferentes de mim.

Agora é mais complicado. As diferenças ocupam muito espaço e minha agenda já está cheia. Meu tempo é curto. Minha paciência está no limite. Desaprendi a pisar em ovos. Se, no entanto, a vida me surpreender e, apesar da minha resistência, colocar uma nova amizade no meu caminho, prometo fazer o que eu sei: mantê-la. Com o mesmo cuidado que mantenho meus bons e velhos.



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