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AS TRÊS MARIAS >> Albir José Inácio da Silva

Plin-plin. A câmera mostra o céu sem nuvens, desce pra areia dourada e avança sobre o mar calmo e azul. Fecha agora sobre as pedras onde se veem dois corpos bronzeados, esguios e adolescentes, que se beijam. Beijam com ternura, as mãos acariciando os rostos. Lentamente a câmera passeia pelo terreno rochoso, vai até a linha d’água e volta. Agora se beijam com paixão, com fome. As mãos seguram as cabeças como se quisessem fundi-las. Dedos desajeitados afastam uma alça de biquíni. A câmera os deixa rapidamente e para lá longe, onde se encontram céu e mar. O microfone ainda registra o estrépito dos beijos e a respiração convulsa. A música se eleva feito um hino e o ruído das ondas marca o ritmo. O Rio de Janeiro brilha ao sol das dezenove horas. E se um dia deuses se amaram, foi assim.

Raras são as novelas que não trazem belas paisagens da Zona Sul do Rio de Janeiro, corpos esguios e bronzeados, e românticas primeiras vezes. Essas cenas alcançam recordes de audiência e ficam na memória de todos.

Maria da Glória, por exemplo, não esquece. Mora na Glória, bairro tradicional do Rio, próximo de onde foram feitas essas imagens. Ela gosta de novelas e gostou da primeira vez:

— A minha primeira vez foi como um conto de fadas. Não. Contos de fadas não têm primeira vez. Foi como uma novela. Aliás, como uma cena que tínhamos visto na noite anterior. Pôr do sol, praia, paixão e amor pra nunca mais se acabar. O garoto ainda namorei uns tempos. Depois acabou. Mas foi bom. Sempre discordo das pessoas que ligam amor a sofrimento. Amor é alegria. Se não, é melhor deixar pra lá. Não há nada que umas compras no shopping não possam curar. Lembro com ternura da minha primeira vez. Lembro com poesia.

Na comunidade da Vila Cruzeiro, Bairro da Penha, uma outra Maria, a da Penha, também se lembra da novela e da sua primeira vez. Ainda gosta de novelas, mas não gostou da primeira nem das outras vezes:

- Não gosto de sexo não. Antes eu achava que ia gostar. Todo mundo falava que era bom. Na primeira vez, tínhamos ficado sozinhos assistindo à novela. Uma cena tão bonita. Nem parecia pecado. Não sei bem porque fiz aquilo. Dá um negócio na gente. Por dentro. A gente não pensa mais em nada. Quando vê, já fez. Mas eu já estava arrependida antes de acabar. Depois gritei com o garoto pra ir embora. Chorei uma semana, não comi, fiquei doente, enjoei, achei que estava grávida. Contei pra minha mãe porque ela tinha dito que eu podia contar qualquer coisa. Teve uma crise de nervos. Contou pro meu pai que gritou e me bateu, depois chorou. Não estava grávida, mas já tinha perdido as provas. Não fui mais à escola. Não fui mais à igreja. Fui expulsa da igreja e só pude voltar depois do casamento. Casamos. Nossos pais tiveram que assinar pra gente casar. Eu podia ter gostado dele. Mas tivemos que casar. Não deu tempo de gostar. Acho que ele também não gosta de mim. Estou ficando feia, maltratada. É essa vida: filhos, pouco dinheiro, tristeza, arrependimento. Sexo só é bom na televisão. Com gente bonita e lugar bonito.

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida.

(Continua em 15 dias)

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