sábado, 12 de julho de 2014

O CARA >> Sergio Geia

Taubaté. Praça Santa Teresinha. Terça-feira. Sete e meia da manhã. Céu cinza. Ele caminha em volta da praça falando ao celular. Eu atrás. No mesmo ritmo.
 
“Não! Não é assim! Nós precisamos fazer uma reunião. Pra já! Mas se prepara, mermão! Se prepara! Ele é esperto. E te passa o rodo. Não, Carlos, eu já disse isso pra ti uma vez. Cê precisa conversar com a Celinha e com o Paulo antes. Expor os parâmetros do projeto, mostrar as referências. Assim eles já vêm pra reunião na nossa, sabendo da coisa toda. Isso...”.

Eu não entendo alguém que se dispõe a cair da cama cedo, botar um abrigo roxo, fazer uma caminhada matinal e ao mesmo tempo trabalhar.

“Você viu como vendeu? Eu não falei? Eu sabia desde o início. Sabia. Os caras não têm visão. Tava na cara que o negócio ia bombar. Cê viu? Eles queriam entrar no mercado timidamente. Esse é o problema. Eles pensam pequeno. Tomam atitudes muito conservadoras. Aí a empresa não sai do lugar. A gente precisa de arrojo. Eu cheguei pro chefe e falei: ‘Não, Fernando, de jeito nenhum! A gente vai entrar com tudo. Aumenta a produção! Vai por mim! Tem mercado. Tem mercado’. Ele foi. Confiou em mim. E você viu no que deu...”

Já eram três voltas, setecentos e cinquenta metros cada uma, pouco mais de dois quilômetros, aproximadamente dezoito minutos, e o cara com o telefone no ouvido.

“Eu tô com umas ideias, mas não posso falar ainda. Olha: promete. O negócio é bacana. Biscoito fino. Coisa de futuro. A gente precisa disso. Olhar pra frente, entende? Eu sei que o pessoalzinho lá não vai gostar, vai achar que é loucura. Mas o Fernando deixa comigo. Ele tem visão. Se fosse se ancorar naqueles manés a empresa dele já tinha ido pro buraco”.

Eu até pensei em dar uma forçada no ritmo e deixar o panguá pra trás. Mas aquele papo todo tava ficando hilário. O cara era uma metralhadora giratória. Ô homem pra falar! 

“A Carol. Sim, a Carol! Tô falando. Tá na minha, mermão. Por que eu inventaria? Sim, parece que tem... Se o cara é babaca eu não posso fazer nada. Não, não, não foi a primeira vez. Deixa de ser mané, Carlos! Sim, ela tem jeitão de modelo. É meio siliconada. Cê já pegou uma siliconada? É meio esquisito. A temperatura é diferente. E daí? Elas gostam. Tem que tratar bem. Quem? A Suzana? Cê tá brincando? Porra, mermão, e aí? Nada? Ah, cê tá marcando...”    

Pensei: esse é o cara. Sabe tudo, o anjão! Uma sumidade. Taí a pessoa que tava faltando pro mundo ser melhor. Será que ele não gostaria de governar o Brasil? A gente tá tão sem opção... O Joaquim tá aposentando. Uma boquinha no Supremo não seria de todo mau... Eu já tava até pensando num jeito de contratá-lo, aproveitar de seu elevado conhecimento pra fazer chegar meu livro na Capital.

“Mermão, tenho que desligar. Não, não... Sabe onde estou? Em Sampa. No Ibirapuera. Sim, no Parque do Ibirapuera. Ah, uma caminhadinha, aproveitando a manhã de sol!”.

Olhei assustado pro céu: cinza. Pra fachada do Santuário. Pro cruzamento da JK com a Pena Ramos. Pra mim. Pra ele. Calma. Está tudo bem, pensei. Ou quase tudo.


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3 comentários:

Cristiana Moura disse...

:) :) :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Não façamos julgamentos precipitados... O cara deve ser sonâmbulo. :)

Zoraya disse...

Sensacional, Sergio, ri demais. O mundo é dos desantenados.