sexta-feira, 18 de julho de 2014

O CASACO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Aline vestiu-se discretamente, como sempre. Vestido, meias, sapatos, tudo preto. Está parecendo um urubu, disse a mãe, gentil, como sempre. 

O casaco. Ela o admirou longamente, como era bonito, um amarelo tão vistoso, brilhante, extravagante, até agora não entendia como tivera coragem de comprá-lo. Assim que chegou à rua, vestiu-o. 

E, novamente, daquele momento até o final na noite, a Aline tímida de doer, explorada, amassada, inexpressiva passou a ser mera espectadora do que uma outra Aline fazia enquanto ocupava seu corpo. Aline-do-casaco-amarelo parecia muito à vontade com o mundo. Parou num bar, entornou um copo de vodca e depois pegou um táxi. Desceu no local da festa, um bar-restaurante badalado que a mídia propagava ser ideal para os modernos e antenados. 

O ambiente, lusco-fusco, estilo decadente-chic, estava lotado. Isso vai ser um saco, pensou. Nenhum de seus colegas a reconheceu. Aline viu Cristiana Rosely, que, bêbada, ainda era mais vulgar que sóbria. Viu também o chefe, e não entendeu o que a outra Aline achava de tão especial naquele mauricinho mal vestido com calça de tergal preta e camisa social branca. Coisa mais brega. Mas, enfim, gosto não se discute.

Aline se aproximou dele, insinuante, manemolente, olhos verdes derramados. E um casaco amarelo que traduzia disposição para sexo selvagem — pelo menos foi o que o chefe pensou quando aquela verdadeira Maeve o beijou na boca e o empurrou para o canto mais escuro daquele botequim de luxo duvidoso. (O que eles fizeram não posso contar, esse é um blog familiar.) Depois, simplesmente, Aline o largou lá, embasbacado, sem jamais associar aquela deusa à sua tímida e sensaborona funcionária.

Aline foi ao banheiro retocar a maquiagem, estava na hora de ir embora daquele antro de chatos. Já tinha feito um favorzinho à dona do corpo, agora ia tratar de se divertir. 

Nesse momento entra Cristiane Rosely, disposta a tirar satisfações com a mulherzinha de casaco amarelo escandaloso que ousara pegar seu homem, mas não deu nem para abrir a boca. Aline deu-lhe dois tapas fortes na cara, desconcertando-a, e imobilizou-a com uma chave de braço que a deixou sem fôlego, tal a dor. Ato contínuo, com uma destreza impressionante, abriu a bolsa de Cristiana Rosely, pegou o batom e pintou-lhe toda a cara, descabelou-a, tirou-lhe os sapatos e jogou-os, junto com a bolsa e todo seu conteúdo na privada. Ainda torcendo fortemente o braço da oponente, empurrou-a de volta para o meio do salão. Cristiane Rosely virou a piada da festa, a piada do ano, toda amarfanhada, descalça, pintada como um palhaço, choraminguenta e tonta. Ninguém ria mais que o chefe.

Aline seguiu pela noite, satisfeita por ter prestado mais um favor à outra. Entrou em bares e lugares que a pacata Aline sem casaco jamais suspeitara existir, mas percebia, de dentro de seu corpo, que a persona do casaco amarelo estava em seu habitat natural. Bebeu álcool suficiente para derrubar um cavalo, sem que isso a afetasse um mililitro sequer. Foi cumprimentada como velha conhecida por vários barmen e outros frequentadores, rivetheads, punks, metaleiros, nada lhe parecia estranho. Beijou homens de tatuagens enormes e assustadoras. Fumou do cigarro de travestis bem vestidos. Dançou em cima da mesa de bilhar, tirou a calcinha e rifou-a entre Hell’s Angels, e ninguém, ninguém mesmo, ousou fazer-lhe qualquer mal ou faltar-lhe com o respeito. Voltou para casa de carona com um homem esquisito que teria feito a Aline sem casaco sair correndo, numa Fat Boy Special em que a Aline sem casaco jamais teria coragem de subir. 

A noite acabara. Assim que chegou, a mãe lhe perguntou que vadiagem era aquela. Aline apertou o braço da velha e sussurrou em seu ouvido coisas que nunca saberemos ao certo o que eram. Mas sabemos de certo que a outra Aline nunca mais foi importunada ou explorada pela mãe ou pela irmã.

Tirou o casaco, guardou-o cuidadosamente e dormiu. 

Acordou achando que tudo fora um sonho vivíssimo e muito doido, mas apenas isso, um sonho. No entanto, não conseguiu encontrar a calcinha. Seu cabelo cheirava a cigarro. Sua boca estava intumescida. Dentro da bolsa havia uma faca Jim Bowie que ela nunca vira, e o celular tocava insistentemente. 

Será que dera seu número a um daqueles estranhos? Àquele tal de Jim Bowie? Não atendeu. Mas a pessoa deixou um recado:

Aline? Aqui é Lenora, dona da loja onde você comprou o casaco. Espero que esteja tudo bem com você. Precisamos conversar. Esse casaco tem estranhas propriedades, nem deveria ter sido exposto à venda. Venha me procurar. Pode ser caso de vida ou morte.

Aline não entendeu muito bem, mas não podia duvidar do que vivera. O casaco ou despertava nela uma personalidade selvagem ou permitia a incorporação de alguma entidade. Não fazia diferença, o que importava era que, toda vez que colocava o casaco não se pertencia mais, passava a ser espectadora de si mesma.

Ao passar pela sala, a mãe e a irmã abaixaram a cabeça — não a humilharam, não lhe pediram dinheiro, não nada. Apenas lhe deram bom dia, baixinho e respeitosamente.

Aline parou em frente à loja, agarrada ao casaco, indecisa, lembrando de todos os acontecimentos ferozes das últimas 24 horas e de todos os acontecimentos insossos dos seus últimos 24 anos de uma vida sem horizontes. 

Podia ser caso de vida ou morte. Devolveria o casaco?


(Maeve é uma deusa irlandesa, símbolo da sexualidade plena e impetuosa, da mulher que escolhia seus parceiros sem cair na promiscuidade.)

(Aline, na sua inocência, pensou que “Jim Bowie” era o nome do dono da faca. Na verdade, essa é uma típica e mítica marca de faca norte-americana, que traz o nome de seu mais famoso portador. Sabe Deus onde e como Aline arranjou isso àquela noite.)




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9 comentários:

Erica disse...

Vai ter uma parte três? Eu torço pra ela não devolver o casaco e curtir a vida pelo menos uma vez por mês... rsrsrs

Anônimo disse...

Parte três, parte três! tem que ter a parte três.
Esse casaco deve valer uma fortuna!

Cecilia

Anônimo disse...

Nossa que Maeve!!! O casaco amarelo é a porta de entrada? Muito bom. Sucesso. Aglae

Anônimo disse...

Uuuuuiiiiii!!!!
Zoraya vc está se superando!!!! Estou ansiosíssima pela parte 3!
Devolver o casaco? Nãaãããõoo! Eu o manteria bem guardadinho no meu armário hehehe. Bjão da Cristina Maria.

aretuza disse...

vai ser caso de vida ou morte porque se ela devolver o casaco eu mato ela!!!! parte 3 já!!!!

aretuza disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Cristiana Moura disse...

Zoraya, Zoraya, não deixa Aline devolver esse casaco não! Podemos fazer uma reprodução secreta desses casacos?

Anônimo disse...

quero o endereço do brechó. Espero que haja peças masculinas por lá, e que as propriedades mágicas de tais peças sejam as mesmas do casaco amarelo. marcio f.

albir disse...

Acho que ela não devolve. E esse casaco ainda reaparece por aqui.