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A ÁRVORE >> Sergio Geia

Foi uma conversa estranha, mas à medida que eu andava, seguindo uma espécie de fila indiana, com a mochila nas costas, o violão, a latinha de coca, ela falou, falou sim, falou no meu ouvido, se apresentando como uma nova amiga. “Olhe pra mim!” E eu olhei. E me senti instantaneamente muito bem. Senti toda a sua força colossal, seu poder extraordinário, sua resistência e sua sensibilidade, uma energia cósmica me invadindo pela epiderme do dedão do pé até a mais profunda das camadas da alma. Ela não parava de falar: “Eei! Irmãão! Estou aqui, viu? Eu vivo também, Tchutchucão!”.

Isso pode parecer maluquice, mas foi real, amigo, eu garanto! Ela me disse que embora centenária, frondosa, enorme, poucos ali a percebiam. “É assim mesmo. Eu já estou acostumada. Somente alguns conseguem sintonizar o meu nível vibratório. E precisa coragem, Tchutchucão! Você tem. Tem muita coragem. Estou feliz com sua presença, meu novo amigo! Faz tempo que não aparece alguém como você. Eu tenho certeza que o renovarei. Mas não se iluda. Não pense que será fácil. Depois que você me enxerga, não adianta mais querer me esconder debaixo do tapete. Seja aqui, na sua terra, em Cartagena ou Paraibuna. Eu vou sempre estar com você. Vou te perseguir... Também, desse tamanho, né? Quer o quê?!”

Eu continuava sem entender. Como aquilo estava acontecendo? Era uma coisa muito louca, tão absurda, tão irreal e tão fantástica. Eu olhava aquelas pessoas e todas, todas alheias, todas em suas vidinhas, em seus movimentos singulares, e eu, simplesmente no meio de um parque lotado, com cara de paisagem, conversando com uma árvore?

“Não se assuste, amigo! Não se assuste! Tem cada coisa aqui que se as pessoas tivessem a mínima ideia, eh... E elas vivem em seus mundinhos. E não querem me enxergar. Talvez algumas até queiram, mas não conseguem. Não encontram a vibe certa, entende? Mas vivem bem. Não pense que sua vida vai ser umas mil maravilhas depois da nossa amizade. Quê!? A diferença é que, depois de mim, você vai enxergar melhor as coisas, com mais nitidez. Ih!, mas dá trabalho... Cê nem imagina como... Toca pra mim, toca. Eu te dei esse presente e você me agradece com uma música, combinado? Toca, vai!”.

Assustado. Eu tava começando a ficar assustado. E com medo. Aquela sensação do início, aquela sensação boa, positiva, tava indo pro espaço. Eu não sabia o que tudo aquilo significava. Pra mim, era tudo muito louco. E ela falava em presente. Que presente? “Ah, meu querido, acorda! Você tá aqui falando comigo, começou a me enxergar, a ver o mundo com outros olhos, e tá se perguntando que presente é esse? Pelamor! Tudo bem, se tá aí meio grilado, meio assustado, é normal, vai. Você precisa de tempo, daqui a pouco as coisas vão começar a se assentar e fazer sentido”.

“Mas que presente é esse? Não dá pra falar?”. “Eh, Tchutchuco! Tá bom, eh... Mania que vocês têm de rotular tudo. Eu chamo de a consciência. Pura. Cristalina. Densa. Ai, que romântico... Pronto. Falei. Satisfeito? Isso tudo que aconteceu aqui, você me ganhou, lindinho. Agora toca, vai. Toca pra mim!?”.

Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, eu cedi. Primeiro tirei os sapatos para sentir o chão gelado. Depois sentei, encostei as costas em seu tronco, arrumei o violão e toquei.

Comentários

Cristiana Moura disse…
Ah... que encanto... toca esse violão, toca...
albir disse…
Que beleza, Sérgio!
Neusa disse…
Olá Sérgio, muito interessante a sua crônica. Gostei de vc ter usado um elemento da natureza para abordar a chamada de consciência. Acredito que nós que já despertamos um pouco a nossa consciência devemos escrever mais sobre esse tema pois se faz muito necessário nesse nosso mundo robótico em que temos vivido. Abraços...
Belo encontro, Sergio!

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