quinta-feira, 24 de julho de 2014

O BOICOTE NOSSO DE CADA DIA >> Mariana Scherma

Eu não sei você, mas eu vivo me boicotando. É um ciclo sem fim. Estou direto com duas (ou até mais) vozes na minha cabeça, uma sempre tentando me convencer de algo que eu quero. A outra, num som mais baixinho, tentando deixar claro que eu não preciso do que quero. A voz da razão é um sussurro. Começa logo pela manhã, assim que abro meu e-mail:

— Bolsas de franja em promoção. Ai!
— Mas eu já tenho duas bolsas de franja.
— Só que nenhuma nesse marrom caramelo. Olha que linda, imagina usar junto com a calça de onça?!
— Esquece, tá faltando armário pra guardar tanta bolsa.

Ok, venci o round um do boicote. Uma bolsa de franja a menos. O problema é que as tentações do dia nem começaram ainda...

Aí vem a fome no meio da manhã. Depois de você ter malhado com toda a sua energia na academia.
— Vou tomar um copão de água e comer uma ameixa.
— Mas e aquela bolacha de chocolate que você comprou?
— É pro fim de semana.
— Uma só não é pecado, aquele gostinho de mel com chocolate... Hmmm!
Resultado: no meio da manhã fui vencida pela própria gula e me vejo atracada com um pacote de gordura trans deliciosamente saboroso. Quem mandou comprar a bolacha gostosa? Agora, só resta focar na salada da hora do almoço e ficar com gelatina de sobremesa.

Dia de supermercado. Vamos lá fazer essa lista certa: cenoura, alface, berinjela, laranja, pão integral, iogurte. Cheguei no mercado. Onde ficou a lista? Na bancada de casa. Ferrou!
— A maioria das coisas era da parte de verdura, vai ser fácil...
— Nossa! O chocolate aerado tá mais barato. Vou levar duas barras. Vou dar uma passada na parte de perfumaria pra ver se tem alguma cor nova de esmalte. Dois esmaltes novos no carrinho. Ai meu Deus, tem fatia húngara na padaria! E pão de queijo, ai, tá quentinho.

Chego em casa sem nada do que precisava, mas com muito carboidrato e esmaltes novos. Boicote do boicote! Será que aprendo na marra agora que não tem nada decente pra comer no almoço?

 Já gastei demais com roupa nova recentemente. Falta cabide nesse armário, não cabe mais sapato na parte de sapato. Tem sapato no armário da cozinha...

— Ah! Esse mocassim verde está tão barato. Eu preciso de um mocassim verde. Como eu vivi até agora sem mocassim verde? Eu faço caber no armário.

Ok, a voz boazinha perdeu de novo. A voz boazinha deveria ser mais estridente, caramba! Não convence nem a mim mesma desse jeito.

Vamos lá focar nesse texto, eu termino em meia hora, pá-pum!
— Mas antes vou só aqui checar meu Facebook, rápido, prometo.
— Checa o Facebook depois, não acha melhor?
— Oi? Olha, a fulana largou do namorado! Será que ela apagou as fotos com ele? Ai, coitada, apagou, tá feia a coisa, só posta música depressiva. Nossa, parece interessante esse texto que o sujeito compartilhou. Vou ler rápido. Ah, vou aproveitar pra ver as fotos dele, ai, tão lindo. Quem é essa vaca que curtiu a foto dele? Cabelo alisado o dela, hein.

Duas horas depois, nem o primeiro parágrafo do texto que seria feito em 30 minutos foi concluído. A voz da razão gentilmente levantou uma placa: eu já sabia!

Vai ver o autoboicote faz parte. A graça toda da coisa é chegar no fim do dia e analisar os ganhos e as perdas de todos os diálogos com a gente mesmo.
— Tá, vou analisar, mas antes deixa eu dar uma entradinha no Instagram...

Partilhar

3 comentários:

Rosimeira P.R. Santos disse...

é o mau dos tempos modernos...kk

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É por aí mesmo, Mariana... Não sei se :( ou se :)

albir disse...

Pelo menos os seus textos não se ressentem do seu boicote.