quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CONSELHOS GENÉRICOS >> Fernanda Pinho



Dizem que “se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia”. Balela. Tem tanta coisa boa que a gente não vende: beijo, abraço, companhia, sorriso. E a maior prova de que a máxima não passa de uma frase vazia, repetida por desacreditados, é que na mesma proporção em que ela continua sendo dita, seguimos a pedir conselhos. Eu sempre peço conselhos. E com uma frequência ainda maior sou procurada para dar conselhos. 

Bom, ainda não entendi bem o que motiva algumas pessoas a recorrerem a mim (Justo a mim! Tão impulsiva e insensata) quando precisam de uma palavra de apoio ou de ouvir umas boas verdades. Mas uma vez procurada para este fim, tento falar aquilo que eu realmente acredito. Não fosse assim, me sentiria uma pessoa fria, calculista e manipuladora. Tenho notado com os anos que “aquilo que eu realmente acredito” segue um certo padrão. Não importando qual é sua situação. Minha linha de raciocínio é basicamente a mesma.

O que tento fazer quando alguém me pede um conselho é aplicar a Lei dos 90 Anos. Não adianta procurar referências em livros de legislação porque fui eu quem inventei. Consiste em basicamente pensar em você mesmo com 90 anos e imaginar a importância daquele problema atual na sua vida depois de décadas. Pela minha experiência em decana na Lei dos 90 Anos, já percebi que isso basicamente leva a três caminhos:

1 - Desvalorize o problema: O mais comum. Às vezes a gente dá importância demais a coisas que quando misturadas à nossa biografia versão estendida não terão a menor relevância. Problema no trabalho? O máximo que pode acontecer é perder o emprego e até os 90 anos você certamente terá encontrado outro (espera-se). Gente te caluniando ou virando as costas pra você? Espera pra ver quantas voltas o mundo dá em cinco ou seis décadas. Problemas familiares? Não adianta esquentar a cabeça. Eles continuarão a se repetir em loop infinito, mudando apenas o foco de atenção. 

2 - Se joga: Geralmente, este é o caminho que eu sigo quando o problema envolve dúvidas. Aceito ou não a nova proposta de trabalho? Aceita. Se o trabalho atual fosse tão maravilhoso você nem seria mordido pela dúvida. Faço ou não faço aquela viagem sozinha? Se você tem a oportunidade, faça. Não espere por ninguém. Invisto ou não invisto nesse amor que parece tão errado? Invista. Amores que parecem errado podem dar certo e amores que parecem certo podem dar errado. É 50% de chance para todo mundo. O ponto aqui é pensar: "eu não quero chegar aos 90 anos e ter arrependido de não ter tentado". (Nota: sim, já me estrepei muito por levar isso a sério. Mas minha bagagem de arrependimentos é leve como uma pluma). 

3 - Faça a sua parte e tenha fé: Tem problemas que realmente não podem ser desvalorizados e precisam ser enfrentados de maneira muito mais complexa do que fazer uma escolha entre duas opções. Um problema de saúde, um problema na justiça. Nesse caso, não vejo outra saída: faça tudo o que estiver ao seu alcance e acredite que, lá na frente (quando você tiver com 90 anos), você verá com clareza que aquela situação te ajudou a ser uma pessoa melhor. 

Agora, se você estiver em uma situação em que de forma alguma poderemos aplicar a Lei dos 90 Anos, nem adianta me procurar na esperança de ouvir palavras bonitas. Eu realmente não saberei o que dizer. Mas terei sempre um beijo, um abraço, minha companhia e um sorriso. Tudo de graça.

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2 comentários:

sergio geia disse...

Sensacional! Vou aplicar

Zoraya disse...

Simples e precisa. E aplicável.