quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A OUTRA >> Carla Dias >>


Eu morava em outro lugar que não aqui. Morava nesse não-sei-onde, e vivi uma vida por lá. Não tinha vizinhos, mas os amigos sempre apareciam. Não tinha vizinhos, mas tinha um lago no fundo da casa, onde eu molhava os pés, diariamente. Não, eu não mergulhava no lago, apesar de desejar fazê-lo. É que, mesmo nesse outro lugar onde eu morava, eu não sabia nadar. Projeto para a próxima existência: aprender a nadar para ficar de molho no lago, em dias de verão.

Eu era outra pessoa nesse lugar outro que não aqui. Tinha cara, voz e nome diferentes, andava em uma cadência que não reconheço. Vestia roupas que nunca moraram em meu guarda-roupa. Olhando daqui, aquela era uma pessoa que eu seria não estivesse ocupada com quem sou. Afinal, aqui o tempo voa, as contas aumentam, a correria é companhia constante, temos de pensar mil vezes, antes de revelar benquerenças, para que elas não sejam confundidas com banalidades, a mais pura conversa fiada para adulação.

A outra fazia longas caminhadas, porque não tinha medo de conhecer caminhos. Sua cabeça não era tomada por listas de afazeres, enquanto contemplava a morosidade de um fim de tarde qualquer. Não lhe inquietavam a tecnologia e as grandes descobertas, porque reconhecia seu lugar de pessoa a ocupar um espaço na vida que não lhe exigia sincronia com determinados assuntos, porque é preciso que também exista aquele que escolhe a sabedoria da simplicidade como guia da sua existência. Assim, ela tinha jardim, cadeira de balanço, noites bem dormidas, crianças correndo pela casa, amor de juventude ainda vigente. Horas para gastar com livros e discos, pessoas com quem papear sem o ímpeto de olhar no relógio, apressando o fim da graça e prazer de um encontro, por conta de um compromisso de negócios.

Tenho certeza de que ela nunca disse “o tempo está passando muito depressa, de jeito que não consigo acompanhar”, porque ela nãos disputa com o tempo. Não precisa, tampouco deseja saber quem passa mais rápido.

Eu morava em outro lugar, sendo outra, ainda que sendo eu mesma. Daqui, dessa vida que eu tenho, e que construí por meio de escolhas nem sempre acertadas, eu a observo com nostalgia, como se tivesse experimentado aquela história. Imagino que, diferente de mim, às vezes ela lance a mim olhares desinteressados, voltando-se de pronto a sua própria realidade.

Deve existir um lugar entre lá e aqui, onde eu possa morar em paz com as versões de mim, tornando-me um pouco mais bondosa comigo mesma. Esse ponto de encontro das águas, esse espaço que existe para confortar a alma da gente.

Até de descobri-lo, daqui eu observo a eu de lá, imaginando como seria encontrá-la para uma longa e honesta conversa.

Imagem: freeimages.com



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2 comentários:

Zoraya disse...

Lindo, Carla! que melancólico... bateu uma tristeza de estar tao desconectada da minha outra...

Carla Dias disse...

Zoraya... A outra da gente sempre volta quando precisamos dela. Daqui a pouco a sua aparece por aí. Beijo!