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NÃO SOMENTE PARA AMANHÃ >> Carla Dias >>


Sopa quente em dia frio. Dinheiro achado nos bolsos dos casacos, antes de dia de pagamento. Espaço vazio onde deslizar de meias e dançar, sentindo-se o Mikhail Baryshnikov ou o Sidney Magal. Fim de tarde a observar horizonte. Fim de espera a abraçar quem estava além do horizonte, mas voltou. Cinema às quatro da tarde de uma quarta-feira. Televisão em dia em que necessitamos do abraço dos cobertores. A celebração de um nascimento. O primeiro dia de escola do filho. O casamento do filho. Os netos a brincarem no quintal. A viagem dos sonhos. Sonhar a viagem dos sonhos. A palavra certa, dita no momento certo por alguém que você não faz a menor ideia de quem seja. Esbarrar com um dos seus ídolos na rua. Escutar aquela música... Sabe qual? Aquela... Escutá-la tocar durante a festa do vizinho. Vinho. Casa iluminada por velas, em dia de jantar especial. Chá de camomila, sempre. Se não de camomila, chá, o seu preferido. A roupa mais confortável, raramente a mais apresentável. Gargalhada de bebês. Sorriso dos avós. Perfume de café fresco feito pela mãe. Conversa fiada com o pai. Discussão acalorada, e extremamente engraçada, com as irmãs e irmãos, com os amigos. A história de vida de um gênio. O som do mar, o seu movimento. A bravura de quem se impõe em benefício do coletivo. A coletividade dos que sabem reconhecer a felicidade na realização do outro. Avizinhar-se de jardins. Cercar-se de pessoas e suas ideias sobre evolução. Evoluir a cada erro. Amplificar sabedoria a cada acerto. O templo. O silêncio. O espírito. A boca dizendo fascínios. Os ouvidos escutando fascínios. O corpo fascinando-se, permissivo ao abrir caminhos aos toques e deslumbres. E a libertar gemidos, que música é sempre bem-vinda para se seduzir os sentidos. Casa que abriga família. Casa que abriga quem precisa de família. Pessoas que recebem e cuidam de quem precisa de família. Lua cheia em céu estrelado. Pés se tocando no inverno. A delicadeza das orquídeas. A alegria dos girassóis. Sapatos confortáveis para correr na rua. Give peace a chance, can you? Você quer? O balanço que parece ter brotado no quintal. Poesia. Aquela mensagem em música linda que só: qualquer maneira de amor vale a pena. Cumplicidade. A contemplação: cidade na madrugada, ondas quebrando, elipse inspirada pelo eclipse. Comida em prato vazio. Teto sobre cabeças pensantes. Ensinamento que oferece aprendizado. O misticismo, a sensibilidade, saraus e serenatas. E você? Então? Eu lhe desejo o tudo que lhe cabe, e que não seja somente para amanhã, embrulhado e com laço pomposo, entre um gole e outro de espumante dali ou da França. Que navegue pelo seu espírito com a ousadia das descobertas. Para você eu desejo, no amanhã e no depois de amanhã - ainda que não tenha cartão brilhante, que não seja o último modelo - a percepção sobre a vida, oriunda das entrelinhas, da franqueza das entressafras, das conversas silenciosas que dão no antes, no durante ou no depois da meia-noite.



Imagem: freeimages.com

Comentários

Zoraya disse…
"a percepção sobre a vida, oriunda das entrelinhas, da franqueza das entressafras, das conversas silenciosas que dão no antes, no durante ou no depois da meia-noite." Que beleza de frase, fechando um texto primoroso em delicadeza. Mais um para a galeria da Princesa da Poesia! Amém sobre os seus votos sobre as nossas vidas!
Carla Dias disse…
Zoraya... Sem palavras para agradecer tamanho carinho. Beijo.

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