quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BELEZA, MEU BEM >> Carla Dias >>


Ela acredita que sua beleza é das mais refinadas, que, futuramente, viverá dela, conhecendo outros países, pessoas interessantes. Porque, vamos combinar, Eleonora e Marcílio não são assim tão interessantes. São amigos desde sempre, dividiu com eles os lanchezinhos no parque e a catapora, mas ainda assim, interessante é outra coisa.

Na escola, dedica-se a se tornar ótima aluna, que diferente de umas aí sobre as quais andou lendo, não quer ser bonita somente bonita, de beleza refinada. Ela quer ser inteligente, de inteligência afiada. Olha-se no espelho, ajeita-se na roupa, olha para si como se estivesse em capa de revista, mas a cabeça, ah, essa funciona a mil também. Outro dia, decidiu escrever um ensaio sobre a falta de cordialidade dos meninos da escola. Digamos que eles não aceitaram suas palavras cordialmente. Mas ela ganhou uma ótima nota e um peteleco do Jurandir.

Criada pela irmã, ela tem vida dura, mas não passa privação de enlouquecer, que Juliene é das irmãs mais mãe que ela conhece. Juliene não é bonita feito ela. Na verdade, às vezes se sente triste consigo mesma por botar reparo nisso. Mas como não fazê-lo? Quando criancinha de tudo, não se importava. Mas foi crescendo e percebendo as coisas, ficou impossível não escutar o que as pessoas diziam sobre a irmã. Às vezes, ela escolhe não receber as amigas em casa, que é para não comentarem sobre Juliene, que não tem beleza refinada. É bondosa, amiga, asseada. Ainda assim, às vezes cai na boca do povo e isso a entristece profundamente.

Ela acredita que sua beleza refinada a levará a outros lugares, melhor iluminados, tão aprazíveis quanto ela. Já fez conta de quanto gastará para conhecer os países que inundam seu imaginário com cenas felizes. O moço disse que ela só precisa querer, que beleza ela tem, da refinada, daquela que irá servir perfeitamente para famosas grifes exporem seus produtos. Antes disso, ela não sabia muito bem o que era uma beleza refinada. Agora, ela sabe que é beleza de capa de revista.

Não consegue parar de pensar que, quando partir, Juliene sentirá sua falta. Mas menina de beleza feito a dela, tão refinada, melhor não desperdiçar, certo? Certo mesmo? Desperdício mesmo? Eleonora acha que a amiga tem mais é que aproveitar a boa sorte de ter nascido assim, de beleza refinada, e lamenta não ter nascido com tal atributo. Já Marcílio discorda, acha que seria muito triste se ela fosse embora para viver de beleza refinada.

Juliene sabe tudo sobre corte e costura. Até as pessoas que falam coisas sobre ela, eventualmente a contratam para algum serviço. Depois que as pessoas superam o susto e a ojeriza pelo rosto queimado da moça, em incêndio na casa, que levou embora os pais dela, não há como não apreciá-la. O humor refinado, feito a beleza da irmã mais nova. A inteligência é afiadíssima. E a bondade não é disfarce para comiseração.

O moço a fez acreditar que sua beleza é refinada, digna das capas de revistas e das mais importantes passarelas e de um salário que deixaria tranquilas a ela e a irmã, sendo possível até bons investimentos para o futuro. Ainda assim, se pega repensando o caso, enquanto observa Juliene arrematando um vestido de casamento. Não contou para ela sobre o convite do moço, que não quis adiantar saudade. Daí que sua cachola dá de reverberar pensamento.

O moço lamentou profundamente. Eleonora tentou pegar a vaga, mas sem sucesso. Marcílio ficou tão feliz, que nem conseguiu dizer palavra que fosse. Ela se sentou com a irmã para conversa séria, explicando que, com a beleza refinada com a qual nascera, poderia desfilar as roupas de Juliene, a princípio, pelas passarelas da cidade, nem que fosse pelas calçadas. Com a inteligência afiada com a qual fora abençoada, ela poderia transformar um negócio singelo feito o da irmã, em algo maior e ainda mais especial.

Foi assim que a menina - de beleza refinada e inteligência afiada – se jogou ao mundo que ainda não conhecia. O mundo e suas passarelas corresponderam ao desejo dela. Jogou-se, mas antes compreendeu que, em determinadas jornadas, é preciso levar companhia.

Imagem: Girl at Mirror © Norman Rockwell

carladias.com



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3 comentários:

Zoraya disse...

Uoua, Carla Dias, a inspirada!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Beleza refinada a da sua prosa, Carla. :)

Carla Dias disse...

Zoraya... :)

Eduardo... Poxa, que saudade das suas palavras. Obrigada e beijo.