Pular para o conteúdo principal

MAIS UM NATAL ESTRANHO >> Zoraya Cesar

Àquela hora tardia da véspera de Natal, pelas ruas quase desertas circulavam apenas os perdidos, os avessos à festa e os poucos que ainda voltavam para casa. 

Vamos nos ater aos perdidos. Desses, alguns procuravam um lugar, um alguém, um milagre, qualquer coisa que transformasse aquele Natal numa ocasião feliz.

Bem vestido, bem apessoado, bem abatido e acabrunhado, o homem caminhava lentamente, arrastando, como bolas de ferro presas aos pés, o peso de uma decisão desesperada. Tão despercebido estava, imerso em pensamentos sombrios, que nem se deu conta de que entrara em uma Igreja.

Era uma construção antiga, de pedra e madeira, pouco iluminada, cheirando a sândalo e rosas. O homem despertou de si mesmo. Que estranho, notou. Os altares estavam vazios de santos, e os bancos, de fieis. Por que estaria aberta?

Porque, certamente, o padre ceava com os paroquianos, concluiu, ao ouvir vozes vindas da sacristia. Virou-se para ir embora, seu lugar não era ali.

– Entre, meu filho, coma alguma coisa antes de sair – convidou-o a mulher que aparecera à porta. 

Fosse o jeito suave dela, a fome que lhe bateu de repente, ou um impulso irresistível, o fato é que ele aquiesceu e entrou. 

A sacristia era espaçosa. Cabia uma mesa grande, caprichosamente feita, e uma dezena de pessoas, que conversavam animadamente. A mulher oferecia comidas a uns, bebidas a outros, numa azáfama interminável. Colocou-lhe nas mãos um copo de vinho e um prato de rabanadas. Tome, disse, vai se sentir melhor. Ele se sentou a um canto, como um menino obediente em meio a adultos, comeu, bebeu e, verdade seja dita, sentiu-se melhor.

Olhou em volta com olhos menos famintos. Devem ser os atores do auto de Natal, pensou, vendo as roupas extravagantes dos outros convivas. Um Padre, de idade avançada, andava de lá para cá, conversando aqui e ali, sempre acompanhado por um enorme gato preto. “Festa estranha com gente esquisita”. A música veio repentinamente em sua mente. “Eu não tô legal”... e levantou-se para fugir discretamente.

Nesse momento, porém, um senhor alto, de cabeça tonsurada e olhos brilhantes, interpelou-o, sem a menor cerimônia:

– Não faça bobagens. Vai cometer um erro enorme. Tenha fé – sua voz era profunda, e, inexplicavelmente, o homem sentiu que obedeceria a qualquer comando daquele estranho. 

– Os papeis que comprovam sua inocência estão em um envelope no fundo falso da sua bolsa de viagem. Ligue para casa.

O homem assim o fez. Poucos depois, começou a chorar. Os papeis foram encontrados, estava salvo. Não mais iria  à falência, não mais seria  acusado de roubo e fraude, não seria preso, não envergonharia a mulher e os filhos. Não mais pensaria  em se matar na noite de Natal. 

Impulsivamente, abraçou o estranho. Como sabia? Como agradecer? O ator – devia ser um ator – levou-o até a porta.

–  Sou bom para encontrar coisas perdidas. Me agradeça doando alimento aos pobres. Agora vá comemorar com sua família.

E sumiu por entre os convidados.

– Antonio – avisou alguém, aos risos – Francisco e o Padre estão acabando com o tiramisù que Marta fez em sua homenagem você não vai nem saber o gosto!

...


A jovem entrou, trôpega de angústia. O plano de saúde não queria aprovar a cirurgia do pai, internado no hospital, nem permitir acompanhantes. E ela ali, sozinha na noite de Natal, sem ter a quem recorrer. Nem mesmo aos santos, que a Igreja estava com os nichos todos vazios. Que estranho, pensou.

Queria sossego e reza, não festas, mas a luz e os sons vindos da sacristia a atraíram, irresistivelmente.

Mal entrou, uma mulher entregou-lhe um copo de vinho e um prato com bolo de nozes.

– Coma – disse – você vai se sentir melhor. 

Assim como todos os outros que lhe antecederam e os que lhe sobrevieram naquela noite, ela obedeceu. E, assim como eles, sentiu-se melhor. 

Reparou, então, nas roupas usadas pelos convidados, no Velho Padre, no gato preto, na calma alegria do ambiente. Certamente o pai gostaria muito de estar ali com ela. Teve vontade de chorar. 

–  Por que, perguntou-lhe um homem negro, vestido de túnica marrom, você não atende o celular? 

Ela se assustou. O celular não funcionara o dia inteiro, mas agora estava tocando. Que esquisito. Atendeu. Era do hospital, comunicando que, inexplicavelmente, o plano de saúde voltara atrás: autorizara todos os procedimentos e também a presença de um acompanhante.

A jovem olhou, extasiada, para o homem à sua frente. Ele sorriu, sem responder às perguntas que ela balbuciava em meio às lágrimas, e levou-a até a saída:

– Acho que você deveria ir ao hospital agora, ficar com seu pai e descansar. 

Ela agradeceu e saiu correndo, mas ainda conseguiu ouvir que o chamavam:

– Benedito, corre aqui pra ver o Menino brincando. 

Que coincidência, pensou, ele tem o mesmo nome do meu avô.

...


Quase amanhecia. Santos, santas e anjos comportadamente instalados em seus respectivos altares, o Velho Padre, com o gato preto ao colo, finalmente descansava, sentado em frente ao presépio. 

Sempre gostara de festas de aniversário. O Natal era mesmo uma data muito especial, disse a si mesmo, sem medo da rima pobre. A única festa na qual o aniversariante é quem dá os presentes. E, feliz por todos os milagres que presenciara, entrou em adoração.

Mais aventuras de Natal do Velho Padre: 

Minuetos de Natal

Comentários

Erica disse…
Ohmmmm Que fofa essa crônica... So cute, Zozô... Adorei. Acho que é do que a gente anda mesmo precisando... um pouco de esperança e crença no divino, porque a realidade anda dura... só apelando pra todos os santos mesmo rs Feliz Natal procê e todos seus amados, querida! Que 2015 seja um ano de renovação e a gente consiga sempre se reinventar e encontrar a motivação pra seguir em frente sem deixar de viver o momento presente em toda sua plenitude.
Ana Luzia disse…
Sabe?

ultimamnente, ando encontrando muitos santos e anjos por aí... eu almoço com alguns de vez em quando, outros são mais difíceis de encontrar pessoalmente... destes eu costumo receber emails, mensagens...

tem uma anjinha querida que escreve crônicas para animar as manhãs de sexta. ela abençoa a minha vida com o milagre da curiosidade, da criatividade, da doçura de ter uma amiga leal e verdadeira.

que os altares e andores fiquem cada vez mais vazios em 2015 e que possamos viver em graça pelos milagres diários que nos acontecem!

esse é o meu testemunho e o meu desejo de um feliz natal e um m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o 2015 para todos!
Cecilia disse…
Que lindo!
E como representa bem o espírito do Natal.
Ah, se todos pudéssemos sentir de forma mais profunda a presença deste Menino que vai chegar...
Me lembrou duas histórias maravilhosas:
It's a Wonderful Life, um filme muito antigo de Frank Capra, e Marcelino pão e vinho.
Um santo e abençoado Natal pra você e toda a família.
Anônimo disse…
Linda mensagem.Realmente estamos precisando de milagres como estes para continuar tendo esperancas.Feliz Natal e Prospero ano novo.
Anônimo disse…
Pô, Zoraya, muito legal a sua crônica de Natal.

Você consegue prender o leitor até o fim, escreve com uma sutileza de detalhes e uma segurança narrativa realmente exuberantes!

Parabéns pelo texto, e que você tenha um Natal e um 2015 iluminados. Aliás, que você tenha luz em todos os seus momentos.

Beijos,
Marcio.
Anônimo disse…
O natal é um milagre...adorei!
Aglae PLima disse…
Um milagre sempre disponível para quem tem fé. Adorei! Beijos. Aglae
aretuza disse…
adorei o espirito natalino da crônica!!! esse padre é ótimo, queria encontrar com ele!!
Clarisse disse…
Linda a crônica, chorei de emoção!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …