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PREZADO 2014 >> Fernanda Pinho

Sei que nossa convivência já está caducando, mas ainda sigo a te dispensar um tratamento polido, posto que não consegui estabelecer um grau mínimo de intimidade com você. E nem pretendo fazê-lo nos 14 dias que nos restam. Aliás, não pretendo mais nada com você e antes que me acuse de ingrata já me adianto nas explicações. 

Não acho que você tenha sido um péssimo ano. Aliás, nunca tive um péssimo ano. Sempre que eu chegar viva e com saúde ao final de mais um dezembro, considerarei o ano acabado como, no mínimo, “ok”.

É isso. Você, 2014, foi um ano ok. E não sou eu quem estou dizendo. Quer dizer, eu também estou dizendo, mas para não ser leviana (para usar um termo muito repetido nos seus dias) consultei várias outras pessoas. E, sem querer te desanimar nem nada, muitas concordaram comigo. Você foi um ano pesado. Difícil de carregar, difícil de empurrar. Passar pelos seus dias foi como atravessar campos de areia movediça usando salto alto. 

Talvez seja por isso que, em alguns pontos do caminho, fui obrigada a me desfazer de algumas bagagens. Ou de pessoas, caso esteja complicado acompanhar a metáfora. Ok. A quem eu quero enganar? Não somos íntimos mas convivemos intensamente nos últimos 300 e tantos dias. Eu não me desfiz. Se desfizeram de mim. Mas no caminho que a vida é, somos todos bagagem uns dos outros. E, ao ser abandonada à beira da estrada por algumas pessoas, a viagem acabou se tornando mais leve para mim também. Para quem isso foi bom ou ruim, só um tempo que já não cabe mais em você, 2014, é que dirá. Por isso continuo te considerando um ano ok.

Eu tinha planos para nós, sabe. Quando o ano virou naquele 31 de dezembro de 2013 eu tinha desejos sinceros no meu coração, repetidos em cada onda que eu pulei. E você, ao que parece, nem sequer chegou dar uma olhada na minha listinha. Mas, tudo bem, ingratidão foi o sentimento que eu mais abominei nos seus dias e seria muito, digamos, leviana, se eu fosse ingrata também. Você embolou minha listinha de desejos, fez uma bolinha de papel e trinta e uma embaixadinhas com ela mas por outro lado…

… montamos nossa segunda casa com todos os detalhes que imaginamos. Realizei meu sonho antigo de mergulhar em alto mar. Trabalhei cada dia mais intensamente que no anterior. Visitei amigos que moram longe. Recebi amigos que moram longe. Retomei amizades interrompidas por outros anos. Li livros que vão me marcar para sempre. Realizei a vontade de me engajar num projeto solidário. Parei de tomar refrigerante. Não dei um espirro, não tive uma dor de cabeça, nem uma dor de dente. Conheci cidades que eu não conhecia. Me viciei (em novas séries, novas músicas e em novos produtos de maquiagem). Não fiz nenhuma dívida. Aprendi a gostar de sushi. Aprendi a comer linhaça. Vi minha irmã ficar noiva. Vi o Galo ser campeão da Copa do Brasil (o que curou qualquer eventual trauma deixado pela Copa NO Brasil). 


Já prevejo você me questionando: “Mas, então, minha filha? O que mais você queria”? Prevejo e, antecipadamente, me envergonho. Talvez eu seja exigente demais mesmo. Mas é que eu só queria mais uma coisinha e, como eu sei que já não há mais tempo para você, venho por meio desta pedir, encarecidamente, que repasse a 2015 aquele meu bilhetinho. Sim, esse mesmo com o qual você fez uma bolinha de papel. Desamasse, desamarrota. Ainda dá para ler. São só três letrinhas. Nada demais. 



Comentários

Junior Iratan disse…
Porra! Você manda muito bem nas crônicas, gênero que tenho que aprender até janeiro para uma prova hehe... Muito obrigado pela ajuda indireta!
Alemap Kiill disse…
Simplesmente amei sua crônica...
...Não vivi tantas coisas "boas" que você viveu, mas concordo que só pelo fato de chegar nesse mês viva, já é o bastante, e eu também desejo PAZ, como eu estou buscando esse sentimento magnifico e magnânimo...
Quem sabe quando eu parar de buscá-lo, ele aparece lindamente para mim...
Um forte abraço e um ótimo final de ano pra você.
Paz pra você, Fernanda.
E paz com graça, que é do jeito que você escreve. :)
Anônimo disse…
Que 2015 seja um ano de muita paz.
Zoraya disse…
Maravilha de texto, Fernanda!

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