sábado, 13 de dezembro de 2014

AONDE QUER QUE EU VÁ... >> Sergio Geia

Campinas. Shopping Center Iguatemi. Livraria Saraiva. Vejo um sujeito de bermuda estampada lendo “Época”. Um japonesinho sentado ao seu lado se lambuzando num McFlurry. Um cara grudado no celular. Uma loura muito das gostosonas com uma porção de livros no colo. Com vontade de ficar na loura, mas já indo, encontro agora, ou reencontro, melhor dizendo, a página 197, que tem no centro a grande frase que dá início ao capítulo: “Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna”.

Estava procurando um livro de crônicas, quando dei com a foto do Marcelo e a frase “Não se preocupe comigo”. Dei uma lida rápida num capítulo escolhido aleatoriamente, e achei que valia a pena prestar um pouco mais de atenção naquilo tudo que ele dizia.

Marcelo Yuka. Baterista d’O Rappa. Época maravilhosa. Projetos. Planos que iam muito além d’O Rappa. Na José Higino. No Rio. 9 de novembro de 2000. 9 tiros. Um deles, na coluna. Estava a caminho da casa do Ed Motta. Iriam assistir a um show. Do Max de Castro. Entrou na José Higino e se deparou com um carro atravessado. Ouviu pipocos. Tentou dar marcha à ré, mas um carro com bandidos estava bem atrás do seu. Evitou um assalto sem querer, mas acabou virando alvo. Tudo muito rápido. E numa fração de segundo, Marcelo foi parar numa cadeira de rodas.

Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna. “Mas que parada é essa?”, pensei. “Por que o Marcelo tá dizendo isso?”. A amargura na sua voz eu conseguia ouvir, eu conseguia sentir, eu conseguia mensurar; aquilo me incomodava de tal maneira que minha vontade era largar tudo o que eu estava fazendo e devorar aquele livro, ali mesmo, no shopping, no meio daquela tumultuada livraria, em uma tarde tumultuada de domingo.

O Herbert, em 2001, sofreu um acidente de ultraleve em Angra dos Reis. O equipamento caiu no mar. Sua mulher, Lucy, ficou presa no cinto e morreu. Herbert sobreviveu, mas ficou paraplégico. A diferença entre Herbert e Marcelo, eu entendi depois de ler o que ele dizia, é que Herbert, na sua opinião, contou com a solidariedade, a amizade e a paciência de seus amigos de Paralamas, Bi Ribeiro e João Barone. A banda está aí até hoje, com Herbert tocando e cantando sentado. Já Marcelo, não. Foi obrigado a se desligar d’O Rappa e teve que canalizar suas emoções através de outros meios.

O livro tem fotos interessantes. O Marcelo com um ano e meio. Na praia, com a mãe, o pai. Alguns shows d’O Rappa. Livre, leve e solto num mar, no sul da França. Deixando a Casa de Saúde São José, no Rio, depois dos tiros. De cadeira de rodas, beijando a mão do Herbert num show. Em casa, na frente de um grafite maneiro feito por um amigo.

Seu olhar está diferente. O olhar de um sobrevivente. Fico pensando, com o Marcelo em mãos, na fila do caixa, como a vida pode mudar tanto de uma hora pra outra. Do nada. De repente, tá tudo diferente. O cara descobre um câncer, ou sofre um acidente, ou fica paraplégico. Escuto a voz do Herbert saindo da caixinha de som da livraria: “Olhos fechados pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar. Aonde quer que eu vá, levo você, no olhar”. Que coincidência, penso. Faço imediatamente a conexão Herbert-Lucy. A mocinha do caixa me chama.


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2 comentários:

Brasilino Neto disse...

Sergio, legal, muito legal. Envolvente. Emocionante. Parabéns, mais uma vez.

Zoraya disse...

Tão comovente, Sérgio! Muito obrigada. Beijos