domingo, 30 de novembro de 2014

EM BUSCA (DA PALAVRA) DE UM SONHO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ele teve um sonho em que a canção "Como uma onda" era cantada com uma pequena e curiosa alteração na letra: em vez de "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo", ouvia-se "não adianta estrudir". Ele olhou para sua namorada do sonho, enquanto esperavam pelo horário certo para descer à estação do metrô, e os dois sorriram da mania dos intérpretes de alterarem a letra das canções. Mas, ao final do riso, ele ficou se perguntando se não se tratava de uma mania dos ouvintes de escutarem errado as letras das canções: ele mesmo, durante muito tempo, achava que "tocando B. B. King sem parar" era "tocando de biquíni sem parar". Então pensou que seria bom consultar um dicionário para ver se existia a tal palavra — estrudir — e se ela fazia sentido no contexto da canção. Como não havia dicionário no sonho, ele teve que procurar ao acordar.

Nem o Houaiss nem o Caldas Aulete conheciam a palavra estrudir. O sonhador também procurou a grafia com x, mas extrudir também não constava na lista de vocábulos. A busca terminaria ali não tivesse ele se lembrado de que, na véspera, pouco antes de dormir, havia lido algumas páginas em inglês. Resolveu então, como uma última tentativa, pesquisar pela palavra extrude no Merriam-Webster... e a palavra estava lá, com seu duplo significado: 1. Forçar, pressionar, expulsar; 2. Dar forma (a metal ou plástico) forçando-o através de um molde.

Resolveu voltar ao dicionário em português, pois, ao pesquisar o verbo extrudir, que não existia, tinha visto um substantivo parecido: extrusão. Os significados eram dois: 1. Saída forçada; expulsão; 2. (tecnologia) Passagem forçada através de um orifício de uma porção de metal ou de plástico, para que adquira forma alongada ou filamentosa. Os mesmos significados do verbo em inglês, apenas inexistia o verbo em português, embora exista o adjetivo extrudado, significando "que sofreu extrusão". A etimologia indica que a palavra se origina do verbo latino "extrudĕre", que quer dizer "expulsar, expelir violentamente". Ou seja, o verbo em português também poderia existir. O Houaiss lista uma única locução associada a extrusão: "extrusão vulcânica (geologia), saída de lava muito compacta, que se consolida obstruindo a cratera vulcânica".

O sonhador resolveu testar se alguém, além do intérprete da canção do sonho, usava o verbo, e fez uma pesquisa no Google: vulcão extrudiu. Descobriu que "magma basáltico extrudiu" e "fluxos de lava podem extrudir".  Lembrou que, na véspera, com o controle remoto apontado para a TV, pensou em assistir ao filme "Pompeia", que trata da erupção do vulcão Vesúsio, mas optou por assistir ao documentário "Filhos de João — o admirável mundo novo baiano", a respeito do grupo musical Os Novos Baianos.

Ficou pensando se seria essa a mensagem do sonho: não adianta extrudir o vulcão de uma Pompeia hollywoodiana, é melhor assistir a um documentário brasileiríssimo. Mas havia aprendido que o sonho costuma ter várias significações simultâneas, pelo menos uma delas mais profunda que o dilema de um telespectador. Telespectador... Talvez seja isso. O documentário alimentou a vontade do sonhador de aprender um novo instrumento, uma gaita, vontade que ele teve enquanto vinha no ônibus para casa. Ônibus que, em determinado semáforo, ficou parado em cima de trilhos por onde já não passam trens. Ônibus que passara a um quarteirão e meio da casa da sua namorada do sonho, uma ex-namorada da vida acordada.

Não, não fazia sentido ainda. O sonhador estava se perdendo em sua busca. Resolveu investigar se os Novos Baianos haviam gravado "Como uma onda"... Não. Mais uma pista falsa.

Ele estava desanimando. Os sonhos não fazem sentido, disse para si mesmo, melhor desistir deles. Pensou em deixar tudo como estava. Havia muito o que fazer no dia: retomar uma alimentação mais frugal após dias de açúcar e farinha de trigo; lavar roupas; tocar violão, assistir a um filme, deitar numa rede na varanda...

Mas uma pergunta lhe ocupava o juízo: Por que não adianta extrudir em vez de não adianta fugir? Por que não adianta expulsar, expelir? E expelir o quê? De que magma, de que fluxo de lava se está falando e cantando? Se não é o caso de expulsar, expelir, o que se deve fazer? O oposto?

Ele voltou aos dicionários, dessa vez em busca de antônimos... Antônimos de expelir: aspirar, digerir, absorver. De expulsar: empregar, admitir, alojar, convidar. Ainda incerto quanto ao sentido do sonho, ele resolveu tentar os substantivos. Não constavam antônimos de expelição. De expulsão: entrada, ingresso. Essas palavras o fizeram lembrar que, no sonho, um pouco depois de eles rirem da palavra estranha na canção, ele perguntou para a namorada: "Vamos pegar o próximo metrô?". A resposta dela veio não com palavras mas com a ação de caminhar. Ele a seguiu.

Não havia uma escada. Eles estavam em um monte, que começaram a descer entre pedras. Havia que se cuidar em cada passo. Na tela onírica dele, viam-se apenas os pés e as pernas deles, principalmente dela. Ele seguia seus passos, procurando pisar perto de onde ela pisava. Descendo e fazendo curvas, eles chegaram ao ponto de entrada, de ingresso. Entraram.

A câmera do sonho deixou de acompanhá-los e foi subindo do chão para a linha do horizonte. Seriam eles os personagens de um documentário? Havia uma estrada e um posto de gasolina. Em seguida, se movimentando para a direita, a câmera mostrou um moderno estádio de futebol. Depois, um conjunto de casas coloridas, à moda antiga. As cores das casas foram aquarelando como uma onda que se aproximasse. Uma onda grande que cobriu as casas, mas, enquanto o sonhador temia que as casas fossem destruídas, a onda se desfez em sua própria nuvem de espuma. A câmera do sonho não estava mais no monte, havia se deslocado para a própria estrada e se movimentava nela, como se estivesse colocada na traseira de um veículo terrestre bem alto ou de um veículo aéreo bem baixo.

Enquanto a estrada que margeava o monte era filmada, o sonhador procurava ver a si mesmo e a sua namorada do sonho, ou mesmo o metrô, que poderia subir à superfície em algum momento. Mas nenhuma imagem dele, dela ou do metrô apareceu. Assim como havia se concentrado antes nos passos dele e dela, a câmera agora focava nos detalhes do chão da estrada: faixas tracejadas, faixas contínuas, retentores de velocidade... Os cinzas do asfalto ocupavam toda a tela onírica. Seria um bom fundo para exibir os créditos de um documentário. Mas as palavras não apareceram.

O sonhador acordou com uma vontade que havia expulsado, expelido de si há algum tempo. Alojada, hospedada em seu pensamento havia uma ideia. Ele precisou ficar um tempo deitado, ainda de olhos fechados, para digeri-la, absorvê-la. Ele a reconheceu de muitos e muitos domingos atrás. Era uma vontade de escrever. Não a vontade caudalosa e cheia de prazer dos tempos antigos, mas uma vontade miúda e dolorida, como um cisco no olho vermelho do coração.

Ele se levantou, bebeu um copo d'água, colocou o celular para carregar, mijou, lavou as mãos e o rosto, escovou os dentes, penteou o cabelo, vestiu a camisa, dobrou o lençol, desarmou a rede, desligou as lâmpadas externas da varanda, abriu janelas e portas, comeu uma laranja, bochechou um pouco d'água para que o sumo ácido da laranja não lhe causasse aftas, sentou-se ao computador, viu seus e-mails, entre eles o de uma amiga leitora que comentava uma antiga crônica sua, começou a responder o e-mail e, quando estava digitando "nos últimos anos, perdi a vontade de escrever", descobriu que a vontade perdida estava ali, ainda estava ali, miúda e dolorida. Ele interrompeu a resposta do e-mail, abriu uma nova aba do navegador e acessou o blog na má esperança de que hoje não fosse o seu domingo e sim o domingo do outro escritor com o qual ele deveria alternar as quinzenas (embora não o fizesse há meses), do outro escritor que era o escritor de verdade (e não um escritor de sonho), do outro escritor que não havia perdido a vontade de escrever. Mas o outro escritor já havia escrito na semana passada. Este domingo era dele.

O sonhador então, cheio de medo, abriu uma nova postagem, escolheu um título e começou a desobstruir sua cratera vulcânica...

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