domingo, 9 de novembro de 2014

ALGO SOBRE CLÁSSICOS >> Whisner Fraga

Gosto de futebol. Muitos escritores esnobam o esporte e, talvez por isso, haja tão pouca ficção produzida sobre o tema. Não sou um fanático. Acho todo tipo de fanatismo uma afronta à democracia e ao direito do outro. Tampouco sou um expert no assunto. Gosto mesmo é de me sentar à frente da televisão e assistir às jogadas engenhosas dos atletas em campo. Considero este um momento de descanso das adversidades do cotidiano.

Não entendo essa “paixão” exagerada de torcedores que fazem do resultado de uma partida motivo para guerras. A imprensa divulga, após cada clássico em nossos estádios, o saldo dessas batalhas: mortes, violência, covardia. Como justificar que o fato de nosso time ter perdido é motivo o bastante para ameaçar outro cidadão? E não apenas amedrontar, mas ir às vias de fato. Culpam as torcidas organizadas, mas isso é buscar uma solução fácil para um problema maior: o espírito belicoso presente na natureza humana.

Por isso vou muito pouco a estádios. Não são lugares seguros, não caiam na besteira de levar suas crianças para assistir a jogos, principalmente os clássicos. Como regra básica de segurança, não vista a camisa de seu time, pois assim seu inimigo o achará mais facilmente. Não torça com muita veemência e, ao sair para a rua, pare de torcer. De preferência fique em casa.

Não consigo entender como uma pessoa elege uma equipe e passa a sofrer e a se deleitar tanto com ela. Como alguém decide que o seu time é o Santos? Ou o Cruzeiro? Ou o Palmeiras? Sei que tem muito aí de herança. Os pais que compram uniformes para os filhos, ainda bebês, os amigos que o convencem que tal jogador é um gênio e, coincidência, ele é um atleta do time X! Até aí conseguimos compreender. O que é estranho é testemunhar a adoração que se segue à escolha. Como explicar a depressão que aparece após uma derrota?

Tentei entender os motivos que elegi o Palmeiras como meu time preferido. E, diante até da situação do time nos últimos anos, acho que resolvi o enigma. Gosto de torcer pelo mais fraco. Acho que a história de Davi e Golias, que ouvi ainda muito criança, me influenciou muito. Torço descaradamente por aquele último colocado na corrida de fórmula 1, pelo lutador mais franzino no ringue, pelo pior atleta das olimpíadas. Sempre ao lado dos piores.

Lembro-me, assim, inevitavelmente, daquela corredora das olimpíadas de 1984, a Gabrielle Andersen. Cambaleia na pista, faz caretas, parece que podemos ouvir seus gemidos de dor. Qual ser-humano neste mundo que deixou de se afligir com aquele esforço descomunal? Todos queríamos ser ela, todos desejamos que ela se superasse e cruzasse logo a linha de chegada. Perdeu o sentido honrar o vencedor daquela prova. Curvamo-nos à beleza do esporte. E não poderia ser assim após cada partida de futebol?

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Um comentário:

sergio geia disse...

Boa reflexão, Whisner. Mas quanto ao Palmeiras... Penso numa roda gigante. Já estivemos por cima, bem por cima. Agora estamos por baixo... é, já faz um tempinho, mas daqui a pouco a roda gira e tudo volta ao normal. Tá demorando rsrs Abraços!