sábado, 29 de novembro de 2014

DILEMAS DE UM RECÉM-SEPARADO >> Sergio Geia

Fui às compras. Confesso que nunca me imaginei comprando o que fui comprar. Nesses 45 anos de vida não precisei. Mas dessa vez, não. Tive que me virar. Sozinho.

Entrei nas Pernambucanas à cata de panos de prato. Pedi a uma vendedora que me mostrasse uns. Até que eram bonitinhos. Delicados, com bordados infantis, desenho de porquinho, de peixinho, de ursinho. O preço era bem razoável. Peguei quatro. Um pra enxugar as mãos, outro pra enxugar a louça. Um jogo reserva. Mostrei a uma amiga que achou lindo, mas disse que aquilo não era pano de prato, era pano de enxugar a mão. “Eu comprei pano de prato”, disse, já meio bolado. Uma outra amiga me tranquilizou. Falou que os panos eram ótimos, que enxugavam prato que era uma beleza.

Tapetinho pro banheiro é outra desgraça. Uma que não achei nenhum bonito. Todos bregas. Era o jogo. Um tapetinho pra pisar ao sair do banho; uma almofadinha pra forrar a tampa do vaso; um outro esquisitinho pra colocar na frente. Umas cores danadas de feias! Depois de muito custo, achei um mais ou menos, uma cor discreta, um bejão.

Numa outra loja fui procurar tupperware. Se há algo importante na casa de um homem sozinho, isso eu aprendi, esse negócio se chama tupperware. O feijão, por exemplo. Você pode cozinhar feijão uma vez a cada 10 dias. Distribui em pequenas porções e guarda. Onde? No tupperware! Depois congela. Quando quiser comer é só descongelar, pôr na panela, temperar, e o feijão fica ótimo. As sobras também podem ir para o freezer. Carne moída? Sobrou? Tupperware.

Cesto de lixo pro banheiro. Um porre. Precisava de dois. Não sou nenhum referencial de estética dessas coisinhas, pelo contrário, mas queria um basicão, branco, simples, sóbrio. Achei cada coisa... Um modelo que gostei só tinha um, o outro tava quebrado. Não comprei nada. Agora em casa já tem papel higiênico nos banheiros, mas não tem onde jogar. Por enquanto, no saquinho... Ave Cristo!

Não gosto muito de ler manuais, e agora tenho uma pilha sobre a mesa. O do fogão, por exemplo. Depois de tirá-lo da caixa, de tirar todas as fitas que prendiam as peças, de tirar um plástico azul, de deixá-lo prontinho para uso, tava lá escrito: “IMPORTANTE: faça a instalação dos pés antes da remoção da fita que fixa o tampão de vidro”.

Aliás, foi necessário fazer a conversão pra gás natural. Se tinha uma coisa que eu não queria gastar muito, essa coisa era o fogão. Almoço na rua, à noite não sou de comer muito, as crianças vem no fim de semana a cada 15 dias. Mas não que eu tenha comprado porcaria. Não era um Brastemp, mas era um bom fogão, que estava na promoção. Acendedor automático, branquinho, quatro bocas. No entanto, tinha de fazer a conversão. E como era novo, e como está na garantia, tive que chamar a assistência autorizada. Não cobravam pelo serviço, mas cobravam as peças. Os caras tinham que colocar uma mangueira de cobre, um adaptadorzinho e trocar uma peça das bocas. O gás comum tem muita pressão, então a peça tem um furinho pequeno. O gás natural não tem pressão, então o furo tem de ser maior. Depois foi só mandar a distribuidora ligar o gás. O que eu gastei nessa brincadeirinha toda deu um fogão. Uma maravilha!

A máquina de lavar me assusta. Parece um dinossauro dormindo na minha casa.


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2 comentários:

Brasilino Neto disse...

Sergio ótima crônica. Me veria na mesma situação, pois em compras sou tutelado, por não saber distinguir um litro de leite de um de água. Até mesmo na compra de um par de meias, pois correria o risco de comprar só um pé e depois de uma semana (só depois de uma semana) descobrir que está errado e ir buscar o outro. Parabéns.

Zoraya disse...

hahaha, bem vindo ao mundo real. boa sorte e q suas aventuras rendam novas e divertidas crônicas como essa.