sábado, 8 de novembro de 2014

ANTES EU VIVIA ANESTESIADA >> Cristiana Moura

O Sol mal nascera e a moça, já de pé, preparava o café para os patrões. Arrumava, lavava, limpava. Fazia o almoço, servia, comia. Depois arrumava, lavava, limpava. Já era hora do jantar. Já passava da hora de dormir. No dia seguinte os afazeres se repetiam. E no outro. E mais um. Nos intervalos Jô criava Vitória ao mesmo tempo que a menina se criava entre a escola e o brincar pelos jardins do casarão.

Certa vez acordou com um cansaço tanto. Não estava cansada de ontem. Nem era cansaço da semana mais intensa de trabalho na casa que recebera hóspedes. Já não havia juventude. Já im-se vinte anos e Jô se cansara dos dias iguais e sem tempo pra pensar seja lá no que fosse. Pensar vida sendo vivida. Deu-se conta que vivia à revelia de si mesma.

Arrumou as malas. Despediu-se sem grandes afetos. Trocou o trabalho de todos os dias e todas as noites em uma casa só por trabalhos em residências diferentes a cada dia. Pessoas outras. Novos trajetos pela cidade.

— Agora, sou dona da minha vida — ouvi-la dizer — Antes eu vivia anestesiada.

Noutro dia cheguei em casa um pouco mais cedo que de costume, por volta das dezenove horas. Jô ainda estava lá.

— O que você está fazendo aqui uma hora dessas?
— Dona Cristiana, eu vou fazer o quê? Não gosto de televisão. Gosto é de deixar tudo arrumado. Não tenho outra coisa pra fazer não.

Jô desaprendera os prazeres simples. Trabalhava por hábito, por necessidade, por lazer.
Vitória que estudava no curso técnico de administração e se preparava para fazer a faculdade na mesma área, já não a requisitava.

— Jô, e não tem uma praça perto da sua casa?
— Tem sim senhora.
— E você não tem amigos, paqueras?
— De homem eu não quero mais saber não, mas tenho amigas sim. E tem a minha irmã também.
— Pois então, quando der quatro e meia você vai embora passear na praça com as amigas, irmã, ou outro passeio.
— É mesmo, né? É que não tenho é costume de diversão.

Jô passou a experimentar novos passeios. Passou a experimentar a cidade. Ela vai sentindo os novos gostos do dia a dia. Dia desses me contava que estava ouvindo os pássaros cantarem.

— Será que eles não cantavam antes ou era eu que além de cega para a vida que eu levava também estava surda?
— Não importa, Jô. Você pode ouvi-los agora.

E nos fins de tarde Jô passeia traçando novos trajetos pelas ruas da cidade, pelos afetos, pela vida.



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5 comentários:

Brasilino Neto disse...

Cristiana muito interessante a crônica, embora seja uma triste realidade, pois não damos conta do que possa nos alegrar, vivemos circunspectos e olhando somente em uma direção, que não é o de nossa felicidade. Parabéns.

Cristiana Moura disse...

... e podemos também ampliar nossos olhares!

Viviane disse...

Nunca é tarde para recomeços. Porém se livrar do cativeiro que nos aprisiona é que se constitui tarefa dura. Pensar no como, e traçar novos caminhos é que nos faz vencedores nesta labuta sem fim.

Uriel Cezana disse...

Muito bacana !

Me lembrei de um texto de Marina Colasanti: Eu sei, mas não devia.

"Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia".

Trecho: "A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia".

Cristiana Moura disse...

Que possamos fazer o novo e no máximo nos acostumar em fazer diferente!