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OS PAIS DA FILHA >> Carla Dias >>


O pão amanhecido feito ela. Ela que não colocou a cabeça no travesseiro, passando a noite acompanhada dos pensamentos vãos. Foram quinze cigarros apagados quando pela metade, no quando ela se lembrava de que tinha medo de ficar doente por causa deles. O pai a iniciara na arte de ser fumante, quando ela ainda tinha oito anos de idade. Ela chorou de fome e ele a alimentou com seu vício preferido. Anos depois, ele faleceu prejudicado pelo prazer, sofrendo um bocado, antes do fim. Ela assistiu a tudo, sendo a responsável pela vigília e por alimentá-lo, como um dia ele fez por ela.

A mãe era linda, tinha o tipo de lindeza de extasiar homens e mulheres. As crianças a adoravam, talvez pelo tom angelical de seu olhar. Particularmente, ela odiava crianças, que achava que elas demandavam trabalho extra, o que não a interessava. Por isso que, de acordo com a sua avó, claramente desapontada com a filha, sua mãe escolheu a completa indiferença à maternidade. Ela fora um erro, não de cálculo, mas de escolha, que se fosse para parir filho, a mãe dela teria escolhido alguém mais apessoado, que fizesse a cria nascer com beleza combinando com a dela, como costumam algumas madames combinarem-se com seus animais de estimação. Ela nasceu de uma noite de flerte e drinques.

A avó lhe criou bem, mas os estragos foram plantados nela muito cedo pelos pais.  Deu muito trabalho à senhora com boas intenções, que tentou lhe ensinar que a vida era mais do que cigarros e bebida. Ela aprendeu, não pode negar. Aprendeu que a vida era mais, porém os vícios dos pais também alimentaram a sua existência, representantes que foram, e continuam a ser, da única forma que a menina encontrou de se relacionar com eles.

As pessoas que não os conheciam intimamente os adoravam. Tornaram-se um casal que personificava o sucesso. Ele escrevia e dirigia e ela atuava nos filmes. Eles eram uma combinação perfeita, de acordo com as revistas, e letal, segundo a avó dela.

Após a morte do pai, a mãe percebeu que era mais do que dependência. O que ela sentia por ele era amor mesmo, dos vagabundos, às vezes, violentos, desconectados da realidade, em grau de completo delírio, mas ainda assim, amor. Trancou-se em seu quarto por longos dezessete dias, negou-se a comer e bebia vodca como se fosse água. Escreveu tantas cartas de amor ao falecido marido, que elas pareciam tomar conta do quarto. Amigos e familiares diziam que ela estava sendo ela mesma, a mulher dramática e mimada, capaz de se tornar, facilmente, o centro das atenções, estava somente desempenhando seu papel.

A lembrança de entrar no quarto da mãe, lugar escuro, cheirando a bebida e falta de higiene, tem lhe acompanhado, desde então. A mãe estava deitada, olhar distante. Deitou-se ao lado dela, que pela primeira vez, sorriu um sorriso único para a filha, e perguntou como ela estava na escola, como eram os seus amigos, o que ela gostava de fazer para se sentir feliz. Faça por mim? Fez.

Quando a avó entrou no quarto, decidida a arrancar a menina de lá, que aquele não era ambiente para criança, deparou-se com cena que lhe despertou emoções agridoces. As cortinas abertas, luz entrando e se esparramando pelo quarto, a mãe deitada em sua cama, olhos fechados e um leve sorriso nos lábios. A menina sentada no sofá, pernas cruzadas, apoiando o caderno sobre elas, deslizando o lápis sobre a folha. Porque a única coisa que lhe remetia à felicidade, naquela época, era desenhar.

O momento em que a mãe a reconheceu ficou registrado naquele desenho, que viria, duas décadas depois, a se tornar uma de suas obras mais desejadas pelos colecionadores.

Amanhecida, feito o pão rejeitado, que não teve chance de fazer a vez de alimento, acende um cigarro para receber o novo dia. Apaga o cigarro na metade, serve-se de uma dose de vodca, um gole longo, substitutivo atroz do café da manhã. Tão celebrada quanto aos pais, pintora de primeira grandeza, em noites como essa ela não consegue se desvencilhar do roteiro que a vida - ou o Deus - redigiu para ela.

A menina levou pouco mais de uma hora para terminar o desenho. A avó ficou à porta, observando-as, celebrando aquele naco de intimidade entre elas. A menina se aproximou da mãe e a chamou pelo nome, baixinho, sussurrado, apenas para trazê-la à superfície das suas auguras e mostrar-lhe que o fez por ela. Fez algo que a deixa feliz pela mãe. Uma pena a mãe não ter respondido, que o que era para representar a felicidade comungada, pela primeira vez, tornou-se o registro de uma morte prematura.

Habitou-se às ironias e crueldades da vida, mas também às singelezas e alegrias que a dita lhe outorga, vez e outra. Soubessem aqueles que se dizem especialistas em sua biografia e obra que nada sabem sobre ela, como seria? Aprendeu a lidar com o mercado com a clareza de quem sabe negociar futuro, como seu pai faria. Aprendeu a lidar com a rotina de celebridade com a mesma graça falseada que a mãe costumava desferir aos que lhe desejam como companhia.

Nela eles vivem em paz - com seus vícios e um com o outro - e são inseparáveis.

Imagem © Albert Herter

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