sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NEXOS >> Paulo Meireles Barguil



Solto altas gargalhadas internas quando ouço as pessoas dizerem que nunca estivemos tão conectados!

Penso exatamente o contrário: nunca estivemos tão desconectados, conosco e com os outros.

Mais adequado seria dizer que nunca, na História da Humanidade, estivemos tão plugados...

Nexum, em latim, de onde se origina nexo, significa, conforme o Houaiss, atar, ligar, travar, entrelaçar, unir e prender.

A Humanidade, há milênios, busca entender o Universo, bem como a natureza desse safári ontológico, em que cada pessoa é, ao mesmo tempo, caça e caçador, como já cantara Milton Nascimento, em Caçador de mim.

Há quem defenda que a existência, o sentido do mundo está nele mesmo, não sendo necessária a participação, a intervenção do Homem.

Outros, contudo, argumentam que, sem o Homem, o mundo não existe, pois é aquele que ratifica a existência desse.

Piaget, no século passado, diferenciara duas formas de o Homem conhecer o mundo: a abstração empírica – somente mediante a observação – e a abstração reflexiva – relação, conexão entre objetos, acontecimentos.

Embora ambas estejam relacionadas, elas se diferenciam pelo tempo dedicado e o produto alcançado.

Se na abstração empírica é possível se pensar em percepções semelhantes, o mesmo não se pode imaginar na abstração reflexiva.

Ao que consta, Buda ensinou que o caminho do meio, aquele que fica entre os extremos, nos leva ao equilíbrio.

A aceitação disso, contudo, não é suficiente porque permanece o desafio de encontrar os limites, que raramente são apenas dois, e balancear aspectos não quantificáveis...

Postulo que o sentido do mundo não está nele, mas é elaborado por cada pessoa, os quais se modificam infinitamente.

A enxurrada de estímulos proporcionada por variadas parafernálias tecnológicas, que estão cada vez mais disponíveis, não tem o poder de nos integrar, mas talvez para o contrário...

Devoradores de pixels, o Homem se vicia nesse tipo de alimento, que o nutre cada vez menos, fazendo com que ele o busque em doses crescentes, ao mesmo tempo em que contribui para o desenvolvimento de percepção fragmentada da realidade.

Transferimos, sem que percebamos, parte significativa da nossa identidade para tais aparatos e nos tornamos objetos deles, quando deveria ser o contrário...

Permanece, contudo, e se amplia, a necessidade de ser visto e valorizado, tal como facilmente se constata nos selfies e respectivas postagens.

— Veja o que eu estou fazendo! Veja como eu sou feliz! Veja como eu sou demais! — gritamos no fundo da caverna, na esperança de que alguém estabeleça, pelo menos, um meteórico contato: curti!.

Que sorte quando alguém comenta!

Que maravilha quando uma conversa se estabelece.

Fomos infectados, e não sabemos, por um vírus parasita, que se alimenta das nossas riquezas mais profundas, exaurindo-as.

O Homem é resultado do que se alimenta e da forma como digere os respectivos nutrientes.

O tempo outrora dedicado à preparação da refeição e à degustação, momentos fundamentais no equilíbrio pessoal, pois frutos do autocuidado, é canalizado à deglutição voraz.

— Eu não tenho tempo! — dizemos, visivelmente alterados, a todo momento — enquanto corremos de um lado para outro, na horizontal ou na vertical.

A qualidade das nossas conexões, nos nossos vínculos, internos e externos, é influenciada pelo que ingerimos e como o fazemos, e não pela quantidade do que engolimos...

Essa crônica tem nexo?

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Um comentário:

Edilson Nunes da Costa disse...

Muito bom texto!!!