segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CRIME OU PECADO? >> Albir José Inácio da Silva

Nem quis ouvir o restante da história, arrastou o filho pelas vielas abaixo. Também, ele começou pelo final, pela bomba, pelo crime e, o que é pior, parecia ter muito orgulho do que fez.
            
O moleque já tinha se envolvido em coisa ruim, mas melhorou de uns tempos para cá. Voltou pra escola, jogava futebol, ia à missa e, no ano que vem, se apresentaria no quartel. Tinha que fazer besteira de novo!

- O que é que foi, mãe, cê tá devendo alguma coisa pro movimento? Virou X9? Por que a gente tá fugindo? – Ainda se fazia de desentendido, o crapuloso.

Esgueiravam-se pela noite, quando foram parados por dois soldados do tráfico que fumavam baseado. Mas foram logo reconhecidos, e prosseguiram.

Já quase no asfalto, havia uma patrulhinha displicente, com dois PMs que nem olharam pra eles. Mas Dona Chica tremeu, tropeçou, quase desmaiou. O menino não estava entendendo. O que dera na sua mãe? Desorientado, ele não tinha direito a explicações, só a andar, quase correr.

Contornaram a igreja e Dona Chica socou a porta da casa paroquial. O padre sabia que àquela hora era problema. Abriu a porta, e a mulher quase caiu em cima dele.

- Padre, me ajuda! Esse menino dessa vez passou do limite. Tá querendo morrer essa praga. O que ele fez é uma blasfêmia, padre. Vai preso, matado e carregado pro inferno.

- E desde quando alguém vai preso por blasfêmia, Chica? Deixa de maluquice! Isso aqui não é o Afeganistão!

- Padre, com Deus não se brinca! Esse peste tá perdido. Já devem tá procurando ele!

Isso não estava cheirando bem. O padre não queria se envolver, não gostava de polícia. A polícia não gostava dele, dizia que ele protegia vagabundo.

- Chica, eu já estou perdendo a paciência com você! Afinal, o que foi que esse moleque fez? Matou alguém?

- Matou não, Padre, que o ofendido não morre. E, se morrer, ressuscita. Fez pior: falou prum juiz que ele não é Deus!

Não se pode dizer que o padre se tranquilizou, mas relaxou um pouco.

- E aonde foi isso? No tribunal ou na rua?

Dona Chica olhou pro filho, que finalmente pôde falar:

- Na vila olímpica. É juiz de futebol.

Dona Chica pegou o chinelo pra bater na cara do garoto, mas foram ambos expulsos. Ela ainda conseguiu dizer:

- Seu padre, juiz de futebol não é Deus, mas é juiz. Deve ser santo pelo menos. Não é melhor o senhor receitar alguma penitência e umas ave-marias?                


Partilhar

Um comentário:

Zoraya disse...

hahaha, pobre D Chica. Diz pra ela q tem jeito não... O menino deu sorte de nao ter de pagar indenização ao tal juiz.