quarta-feira, 26 de novembro de 2014

MINHA CAIXA >> Carla Dias >>


O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome. 
Do poema "Pedido quase uma prece", de Manoel de Barros.

Eu moro em uma caixa.

No canto da caixa, empilho livros que, ainda que demore, eu leio. Se me apaixono por algum, ele ganha uma pilha especial, aquela dedicada aos dos quais jamais me desfarei. Apaixonar-se por livros requer espaço, mas mesmo quando a caixa é pequena, dá-se um jeito de não abrir mão dessa boa companhia.

Acho curioso ter de dizer que amo livro físico, em época de livro digital. Mas ele não deixa de sê-lo, mesmo quando lido em tela de computador, que há alguns que mexem com a gente de um jeito, que fazem o corpo vibrar, que nos faz sentir sendo tocados pela palavra.

Na minha caixa não falta café fresco, principalmente em madrugada que espanta sono e inspira a escrever. Em pequenas pausas – para esticar o corpo e espiar do relógio que aponta que, daqui a pouco, é hora de ir para o trabalho – caminho descalça pela minha caixa. Gosto de andar descalça, de dormir no sofá, antes de ir para a cama, de passar mais de hora a contemplar horizonte da área de serviço. De fazer nada, enquanto vou mudando um tudo.

Minha caixa não é minha de verdade. Vivo um faz de conta com firma reconhecida em cartório e pagamento mensal. Durante longos períodos, consigo até acreditar que ela me pertence, não no sentido proprietário, mas de apropriação de sentido, que faz todo sentido senti-la minha, já que construo, em seus cantos e centros, a vida que levo.

Sempre há música na minha caixa, que não é triste. Há quem diga que preciso me desapegar e diminuir as horas que passo me perdendo nela, pensamentos atiçados, coreografia desajeitada para as canções de rock, olhos dela abertos para apreciação das pessoas que caminham pela rua. Acontece que sou moça de caixa mesmo, que gosta de aproveitá-la, de dividir seu espaço com o estar só, mas também produzir almoços com os amigos nela. Em dias de reunião de amigos, a caixa faz mais sentido ainda.

Eu vivo em uma caixa, com meus livros e meus discos, minha tevê, que adoro filmes, novelas e séries de televisão. Para mim, ela é um universo dentro do universo, um pedaço valioso da minha experiência de vida. Não é a primeira caixa, tampouco será a última. Não é prisão, ao contrário, é o lugar onde aprendi a liberdade ser. O lar, o lugar no qual descanso dos assombros e dos sonhos, onde recebo meus afetos.

Seja bem-vindo a minha caixa. Que todos possam ter a sua, e que não sejam as de papelão, debaixo das marquises. Que tenham direito ao logradouro, aos seus cantos para enfeitar como desejado, aos centros onde dançar, em grupos, aos pares ou só.

Imagem © Juja Kehl

carladias.com

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