domingo, 23 de novembro de 2014

A CIDADE DE VOLTA >> Whisner Fraga

A cidade deveria ser nossa. Dividida entre a vontade do poder instalado e o desejo da iniciativa privada, ela agoniza em sua missão disfuncional. Queremos nos mover, mas nos sentimos impotentes diante da imobilidade de uma urbe caótica e sem diretrizes. Como nos movimentar? De carro, de bicicleta, de trem? Aqueles que nos representam precisam decidir entre o transporte particular e o coletivo. É tarefa deles escolher o que priorizar. Assim, precisamos estar conscientes que, quando elegemos políticos, investimos no aumento ou na diminuição de emissão de poluentes, no acréscimo ou não dos velhos privilégios para poucos, na venda ou na recuperação de lugares públicos.

Precisamos nos desacostumar com a visão de que somos donos de espaços coletivos. A calçada não é nossa, aquele trecho entre a sarjeta e o meio da rua, onde os carros normalmente estacionam, não é nosso. O patrimônio da prefeitura não é nosso. Cabe a ela, cabe aos políticos instituídos democraticamente decidir o que fazer com o que é do povo. Construir escolas para a população que delas precisa, erigir bibliotecas, centros de convivência, parques, ciclovias. Deixar a cidade mais acessível e mais bonita.

Tenho a impressão de que a cidade foi vendida. Um filme a vinte reais, uma peça a quarenta, uma caminhada a dez reais, tudo tem preço e poucos podem pagar. Quando ouço uma pessoa, contrariada, afirmar que “gasta” duas horas para chegar ao trabalho, sinto pena. Porque o tempo não se vende, o tempo é um bem não renovável, não retornável. O tempo, aliás, não é um bem e não deveria ser negociado. O tempo é nossa vida.

O que fazer para recuperar uma cidade que talvez nunca tenha sido verdadeiramente nossa? A senhora lava o quintal de sua casa, o rapaz enxuga o carro na garagem e ambos pensam que a água é deles, porque pagam as contas em dia. A água não é deles. Precisamos aprender a pensar coletivamente. Se desperdiço algo, mesmo que tenha condições de bancar esse desperdício, faltará para alguém, talvez até para mim mesmo. Então eles espalham o medo: privilegiar o coletivo pode levar ao fim do privado.

Essa falta de educação produz violência. O trânsito mata cada dia mais. Nas ruas, a criminalidade aumenta. A desigualdade semeia a insatisfação. Precisamos de escolas, de parques, de bibliotecas, de clubes, de ciclovias, de transporte público eficiente, de fraternidade. Precisamos exigir a cidade de volta. Cidade é convivência pacífica. Respeito. Precisamos de acessibilidade para aqueles com déficit de mobilidade, precisamos de escolas que abram aos finais de semana para a comunidade de seu entorno, precisamos de livros disponíveis gratuitamente em cada esquina, precisamos de internet de graça e de qualidade. Precisamos nos tornar cidadãos para depois reivindicarmos a posse de nossa cidade.



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