EU. MINHAS MARCAS. MEU GATO. E NOSSA REDENÇÃO. >> Zoraya Cesar

Dizer que estou com 'os nervos à flor da pele" virou realmente figura de linguagem para mim. Os queloides que tenho pelo corpo dividem o espaço com a pele. A sorte é que tenho meus nervos sob controle. Como essas marcas surgiram é uma história que poucos acreditarão. Mas é tão verdadeira quanto eu.

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Para saber o que me aconteceu, diminuam as luzes, deixem o ceticismo numa gaveta, e embarquem comigo nessa viagem ao mundo dos sonhos reais.

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Quem viveu na roça não se assusta à toa. Estamos acostumados à escuridão das noites sem lua, aos indistinguíveis sons que brotam do solo, aos vultos incorpóreos que passam sob nossas janelas. E, se por azar, você tivesse sido criado com um mago negro e perverso, estaria ainda mais acostumado ao inexplicável. 

Não sou, portanto, impressionável, nem homem de superstições. Mas sei que há coisas que fogem ao nosso entendimento. 

Os pesadelos começaram quando soube que meu avô morrera. E que eu precisava voltar à casa onde fui criado e passei minha vida até conseguir fugir para longe de seu domínio ominoso. 

Eles se repetiam, noite após noite: eu preso na minha antiga casa em chamas, sem ter como escapar. Ao fundo do crepitar apavorante das chamas podia ver um anão soltar a risada casquinante e detestável de meu avô. E havia um miado estridente que arrepiava meus cabelos esturricados, doendo na minha memória.

Ao contrário de qualquer outro pesadelo que já tivera, desse eu não conseguia despertar. Acordava – e isso era assustador – com marcas vermelhas, quentes e doloridas na pele; as sobrancelhas chamuscadas; desidratado. 

Mesmo depois de morto meu avô ainda tinha poderes.

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A viagem seria longa, e a chegada, desagradável. Mas eu era o único herdeiro, e não sou homem de fugir às minhas responsabilidades. Talvez por isso o Sr. Destino tenha me ajudado. 

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Calafrios se espalharam por meu corpo enregelando meu coração ao avistar a casa. A aura de maldade que ela transmitia ainda era palpável. Bendita a hora em que fugi dela. E de meu avô, aquele bruxo velho, mago negro de maus bofes, vingativo e cruel, mal-humorado como um caranguejo, braço esquerdo do Tinhoso. Não tivesse eu escapado, certamente teria o mesmo final trágico e misterioso do resto da família, todos vivendo sob seu tacão pesado, opressivo e poderoso. 

No entanto, eu sempre soube que meu avô não descansaria até destruir, de alguma forma, a única pessoa que escapara de suas mãos. E cá estava eu, me entregando, de bandeja, no seu covil. E eu não pretendia fugir.

Pretendia ficar alguns dias, ajeitar a papelada, arrumar o que fosse necessário e partir. Tudo estava aos pedaços de madeira podre, paredes mofadas, cobertas por teias de aranhas mortas de fome pois há muito nem insetos entravam naquela pocilga. 

Deixei a mala no meu antigo quarto e fui passear no enorme terreno da chácara. Eu amava demais aquelas árvores, pássaros, o cheiro inigualável do húmus após uma tarde de chuva. Meu coração, no entanto doía. Minha mente tentava resgatar alguma memória ligada àquele local e eu não conseguia deixá-la vir à tona

Joguei água benta e um extrato de arruda em volta da minha cama. Mas, ainda assim, o pesadelo foi extremamente real. Reconheci o vulto do anão como sendo um emissário de meu avô. Coisas que a gente sabe nos sonhos. Dentes amarelos e serrilhados em ponta, capazes de estraçalhar pedras; as unhas grandes, curvadas e imundas; o olhar esbugalhado e raiado de vermelho dos loucos. Vestia-se com o mesmo roupão roto que meu avô usava quando fazia seus encantamentos maléficos. Trensandava a suor e esterco. Aproximava-se de mim e eu não tinha para onde fugir. Encurralado em meu sonho, apavorado como quando criança, não conseguia me mexer. Minha hora chegara. Porque você pode morrer em seu sonho. 

Foi então que Tigrin surgiu, furioso, seu miado ameaçador, os pelos eriçados. Tigrin! Meu gato querido. Comecei a chorar, como o garoto que fui. 

Tigrin e eu nos protegíamos. Meu companheiro fiel, única coisa boa da minha infância. Até que meu avô o pegou de jeito e… quando o encontrei já estava morto. Escondi seu corpo para que não fosse usado em encantos demoníacos. Apanhei muito para revelar onde o colocara, até que meu avô desistiu. Eu é que nunca me livrei da culpa de não ter salvo Tigrin. Mas enterrei o assunto na minha mente, concentrando-me no futuro plano de escape. 

Tigrin e o servo de meu avô lutaram renhidamente, mas o dia amanheceu sem vencedores. Acordei com queimaduras e o odor nauseabundo de carne queimada em minhas narinas. 

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Minha memória despertou do trauma e lembrei onde enterrara Tigrin. Chorei muito. Fiz uma cerimônia de despedida, conversei com ele. Agradeci por interceder por mim na noite anterior, mas não queria que ele se machucasse mais. Quando criança não pude defendê-lo, mas agora eu era adulto. E aquela casa, o terreno, tudo era meu, e eu faria com que o lugar fosse um santuário, não um covil.

OUVIU, AVÔ? ISSO TUDO É MEU AGORA. E EU VOU DESFAZER TODO O MAL QUE VOCÊ FEZ A ESSE LUGAR. OUVIU? MEU!

Certamente ele ouviu, pois naquela noite… os acontecimentos saíram, definitivamente, do campo dos sonhos. Não vou dizer “acontecimentos surreais”, porque tudo foi bem real. Meus queloides estão aqui para provar. 

Deitei, pensando em tudo o que passara naquela casa, na família esgarçada, destruída, morta, por artes negras de meu avô. Em Tigrin. Em como, apesar de tudo, tornara-me um adulto destemido e razoavelmente normal. Adormeci, embalado pelo som lúgubre do vento espanando as folhas das árvores. 

Acordei envolto em chamas rubras que impediam a saída pela porta do quarto. Negras fumaças sulfúricas (meu avô devia ter vindo do Inferno especialmente para me matar) sufocavam-me. Por entre as lágrimas ardentes feito lava que praticamente me cegavam vi o anão persona de meu avô tentando atear fogo diretamente em mim. Porém, Tigrin surgiu, novamente do nada, e se atracou com o maldito. 

A luta estava feroz - em pouco tempo o anão desgraçado perdeu um olho e Tigrin quebrou uma pata.  Eu me contorcia em agonia, pela dor das queimaduras e pelo calor insuportável, a fumaça tóxica tirando meu ar. Chamas altíssimas formavam uma barreira quase inexpugnável à frente da janela. Mas era a única saída. Que provavelmente me levaria à morte. Mas se eu ia morrer, que fosse do meu jeito.

Dessa vez, porém, não fugiria, simplesmente. Enfrentaria meu avô e levaria meu amigo. Tigrin miava cada vez menos vigorosamente e eu estava quase desmaiando. 

Evitando suas garras, apertei o pescoço do anão até que seu único olho saltasse, enquanto invocava, por entre meus lábios crestados, São Miguel Arcanjo. Sim, avô, eu aprendi uma coisa ou outra. Joguei-o longe. Ele ainda tentou me arrastar com ele para o inferno, enquanto se desfazia em pó e uivos aterradores. Agarrei Tigrin e, abraçando-o, joguei-me pela janela. Cheguei ao chão já desfalecido.

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Passei algumas semanas no hospital, semanas de agonia e êxtase. 

Da casa restaram alguns poucos escombros ressequidos e o vazio de um buraco negro. Uma paz inédita circundava o lugar. Destruí o que restara, limpei e salguei o terreno. Depois pediria a Padre Tércio que abençoasse tudo. Faria dali algum tipo de abrigo para pessoas ou animais abandonados. Sentia-me, finalmente, livre. E feliz. Eu vencera o Mal e resgatara meu amigo. 

Acampei ali mesmo, seguro de que todo a presença maléfica havia sido extirpada e lançada às profundas Trevas para não mais voltar. Tigrin veio para meu peito e juntos adormecemos como antigamente mas, dessa vez, sem sobressaltos, ao som de seu ronronar e da chuva na lona da tenda e ao cheiro de terra molhada. 

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Amigos, o episódio da casa em chamas aconteceu muito rápido. O que pode lhes parecer uma narrativa longa, afianço-lhes que demorou poucos, muito poucos minutos. Ou não estaríamos aqui para lhes contar essa história – eu, meus queloides e meu gato, Tigrin.






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Comentários

Érica disse…
Com um avô desses, quem precisa de bruxa má pra assombrar as noites da infância. Cruz credo...
Marcio disse…
Quando eu li, no início do texto, o narrador afirmar que "a sorte é que tenho meus nervos sob controle", logo pensei: lá vem doideira.

Um pouco além, outra frase me chamou a atenção: "Quem viveu na roça não se assusta à toa." Acho que dá para dividir quem viveu na roça em dois grupos: aqueles que não se assustam à toa, e aqueles que se assustam com qualquer coisa, e disseminam suas crendices entre outros apavorados.

Por fim, um conselho ao narrador: se ele tiver algum outro bem a herdar de algum parente malvado, sugiro que ele passe procuração a uma pessoa de confiança (preferencialmente alguém cuja morte ele não vá lamentar muito).
Clarisse Pacheco disse…
Esses bichinhos além de mágicos são muito leais sim senhor. Um cão é fiel, mas não tem os potenciais de um gato. Será que foi Tigrin quem se materializou, ou foi seu dono quem desencarnou?
Mistérios...
ah, os legados de família... nem sempre são as riquezas que desejamos... que bons amigos nos guardem sempre!
branco disse…
Instigante !
ps. nem todos os magos são maus rs
Unknown disse…
Eu amei.
Concordo que as vezes as pessoas são supersticiosas, mas quem nunca deu um pulo pra traz assustado com a própria sombra? É como diz o ditado, no creo en brujas, pero que las hae, las hae.
Ainda bem que o Tigrin tinha nove vidas e o personagem-narrador muita coragem pra enfrentar esse avô bruxo do apocalipse!
Agora, quero pedir uma coisa, querida Lady. Nós, seus leitores, precisamos de um manual de luta contra forças trevosas e respectivas providencias de descontaminação. O munda anda muito complicado...
E outra coisa, vou pensar em outro apelido pra vc. Lady Killer não está fazendo jus...
Zoraya Cesar disse…
Érica - pois é, nem toda bruxa é boa e nem todo bruxo mau está fora da família. Mas nosso amigo sobreviveu e bem! Finais felizes tb existem.

Márcio - "Quando eu li, no início do texto, o narrador afirmar que "a sorte é que tenho meus nervos sob controle", logo pensei: lá vem doideira." HAHAHAHA Márcio, ri muito com esse comentário. E qto ao seu conselho ao protagonista, de passar procuração pra algum desafeto, ele nao faria isso. Deixou bem claro q nao era homem de se furtar às suas responsabilidades. Mas vc me deu uma ideia...

Clarisse - sim, os animais que nos amam têm poderes mágicos, principalmente gatos. Qto à sua pergunta... mistérios...

Ana - sim, Amém! Pois em toda família há sempre um que...

branco - My Lord, com certeza! com certeza!

unknown _ hahaha, sim, é uma boa ideia. Se bem que em todas as histórias que tratam de assuntos trevosos o narrador sempre dá um jeito de dar uma dica ou outra. Qto ao Lady Killer... ah, mas eu gosto tanto kkkk.

A todos, muito obrigada!

Albir disse…
Não bastassem os pesadelos, agora eu tenho essa pérola de informação tranquilizadora: "Porque você pode morrer em seus sonhos". Morrer ainda vai acabar sendo um final feliz.

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