ALMOÇO >> Whisner Fraga


Imagem de Alexandra Koch para o pixabay. 


espicho o ouvido pelo terror amadeirado: silêncio,

na retaguarda, uma mão afrouxa a ansiedade de meses:

podemos sair?, sim. tem certeza?, (nenhuma, penso): sim.

melhor a escada, regamos as maçanetas com álcool 70,

seríamos dois ninjas até o carro, não fossem as roupas coloridas,

ufa - entramos - ufa - de que lado é mesmo a chave na ignição?,

o motor tosse, regateia: as bielas, os pistões, os cabos se acostumaram à preguiça,

(gasolina tem prazo de validade?)

um estrondo denuncia minha vitória: a menina ri,

mas é um riso empenado, a boca imóvel a não ser por uma suave trepidação,

o carro pula, sai acossando os buracos das avenidas, sufoca, mas segue,

você tem certeza?, a menina insiste,

(tenho vontade de declarar: não há nenhuma certeza em nada [mas não posso])

sim, tenho,

estacionamos, o restaurante vazio, há um protocolo, deve haver,

há,

é seguro?, a menina escarafuncha,

(tenho vontade de alertar: ninguém sabe [mas não posso])

sim, é sim,

almoçamos meio envergonhados - a comida atraca na garganta,

mesmo famintos estamos sem fome,

abandonamos os talheres:

e agora?, pra casa.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
O medo tira nossos prazeres mais singelos e nem nos deixa um gostinho de vitória sobre os desafios. E amei o personagem engolir realidades para nao assustar a Menina. Tocante, como sempre Whisner.
Albir disse…
Desespero nosso de cada dia.

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