QUEBRADAS > > Sandra Modesto

 














A aula remota de história estava quase no fim, era a última aula de dezembro quando a professora Beatriz pediu que os alunos postassem fotos. Uma ideia que a professora inventou com o objetivo de levantar um pouco da autoestima de alunas e alunos da escola pública da periferia. 
 
Pediu que enviassem uma foto do rosto. Mandou no grupo de estudos a frase: “Hoje eu estou feliz.” 
 
Priscila do nono ano arrasou na selfie do sorriso. Gabriela, Lara e Lia também. Na turma, os meninos enviavam as tarefas no começo da noite. A professora Beatriz entendia. Muitos já eram arrimos de família. Aos 14 anos. Talvez menos. Talvez mais. Muitas meninas tinham que cuidar dos filhos ou dos irmãos até que o dia terminasse, o sossego chegasse e os deveres postados nas aulas eram enviados com pedidos de desculpas. 
 
Depois de cada conteúdo enviado, a professora tinha que acessar o site da Secretária Estadual de Ensino e postar diariamente os PETS – Plano de estudos tutorados. 
 
2020 não foi programado para aulas virtuais. Professores tiveram que se adaptar ao novo formato. Não, não foi fácil. 
 
Por isso a foto do sorriso seria um afago no coração da professora Beatriz. Ela acordava às 6 horas da manhã, meio sonolenta pela noite cortada com os choros do filho de dois anos. Por várias aulas, o filho ficava correndo pela salinha enquanto Beatriz atendia o grupo de alunos. 
 
Nada melhor do que uma aula leve de um desejo inventado... “Hoje eu estou feliz” 
 
— Professora? 
 
— Oi, Lia, pode falar. 
 
— A gente tem um grupo particular aqui no Zap, mas não rola muitas fotos com a galera sorrindo. Por isso teve poucas na tarefa de hoje. 
 
— Tudo bem, Lia. Não tem importância. Muitas eu estou recebendo e vou guardar pra mim. Aliás, sua foto ficou linda. 
 
— Obrigada, professora. Gosto muito de você. Beijos. 
 
Eram nove horas da noite e Beatriz colocou o filho pra dormir. 
 
A casa ficou tranquila e ela foi olhar as fotos da turma toda. Trinta e cinco. Vinte meninas e quinze meninos. Vinte e sete fotos ao lado das mães. Todas as mães sorrindo meio amargas sem alguns dentes. A professora Beatriz olhou o filho dormindo. Enquanto em muitas casas, homens socam mulheres e o sangue jorra queixo abaixo. 
 
 
 
A violência doméstica afeta a autoestima das mulheres. O alvo principal do agressor é a boca. No Brasil, há milhares de mulheres com as alegrias quebradas. 
 
Minha última crônica do ano. Eu já fui parecida com a professora Beatriz. Inventava sonhos. Minha Beatriz carrega muitos pesadelos. Também.

Comentários

Albir disse…
Que importante, Sandra, esse olhar para a rotina da periferia. Ainda mais sabendo que tem raízes em sua experiência pessoal. Esse sorriso solicitado pra foto lembra que é preciso, e possível, sorrir. Pelo menos às vezes.
Zoraya Cesar disse…
Bastante feliz a sua crônica sobre um assunto tão infeliz. Que venham mais crônicas a despertar a indignação a sair pelas ruas gritando basta. Com todos os dentes.
Alfonsina disse…
Adorei seu texto, sua personagem, a história tão atual e o alerta para a triste realidade de tantas mulheres...
whisner disse…
Infelizmente estas estatísticas pioraram com a pandemia... A realidade da professora que acredita poder mudar o mundo com sua ação é a de muitos e muitas...

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