quarta-feira, 4 de julho de 2012

A IMPORTÂNCIA >> Carla Dias >>


Frederico Duarte é um homem que zela pela privacidade das suas queridas excentricidades. Também é um escritor e poeta reconhecidamente dos melhores, dos maiores, dos best sellers. Não é dado ao intelectualismo e honra suas ignorâncias e incapacidades, principalmente porque as acha tortamente divertidas. 

Por conta dessa maneira agridoce de ver as coisas – que vem lhe garantindo sucesso e riqueza -, muitos da sua laia morrem de inveja do homem, enquanto outros querem apenas estar por perto, usufruir da capacidade dele de criar peculiares e emocionantes enredos. 

Pela primeira vez, em sua tortuosa trajetória como escritor, Frederico receberá uma homenagem por ter sido considerado um dos homens mais influentes da sua geração. Quando soube do acontecimento pela Letícia, sua assistente há quase duas décadas, caiu na gargalhada, satirizando a importância atestada a sua mania de escrever livros. Sou apenas um homem que, em vez de se esbaldar em realidade, vive de inventamentos. Letícia, acostumada à forma ácida como o escritor vê a própria importância, sorri e informa que o evento está confirmado e ele não pode declinar. Trata-se de uma honraria oferecida a poucos, ela esclarece. E com a intimidade cultivada pela amizade deles, ela diz que ele irá, nem se for amarrado.

Frederico não é homem de se encantar por prêmios e honrarias. Ele é um sonhador com urgência particular em dizer o que não saberia expressar de outra forma que não fosse pela escrita. Além do mais, não se adapta às convenções, aos humores da sociedade formada pelos intelectuais da moda. Tanto ele quanto a sua escrita são de uma crueza que não se dobra aos modismos ou às tradições das quais não é adepto. E essa ranhura em sua imagem pública, esse desconforto que ele causa ao dizer da forma que diz o amor, a política, o ódio, a maledicência, essa forma como ele lida com o universo do sentimento que dá em prosa e poesia, é única e colabora com a relação de amor e ódio que mantém com outros escritores.

O diretor da emissora de tevê a cabo, empresa patrocinadora do prêmio que Frederico receberá, é um renomado empresário que se diverte escrevendo poesia. Ele vai até o palco e se coloca de frente ao púlpito. Está na hora de chamar a pessoa que apresentará o escritor da noite e lhe entregará o prêmio que inclui um vale férias de um mês em qualquer lugar da Europa e com todas as despesas pagas, os melhores hotéis e restaurantes, além de ingressos para espetáculos de música e teatro. Uma placa, simulando a capa de um livro, banhada em ouro e com o nome do escritor talhado nela. E para finalizar, um cheque no valor de dois milhões de reais.

Quando o diretor da emissora diz o nome dela, Frederico sente o corpo anestesiar. Não gosta de misturar as estações e Letícia já faz parte da sua vida há muito tempo. Ela não é somente sua assistente, uma escritora. É uma amiga, a única.Letícia, que está sentada ao lado de Frederico, sorri para ele e se levanta, caminhando até o palco. Ela não gosta de vestido de gala, tampouco de usar salto alto. Não é mulher que passa muito tempo na frente do espelho, porque, como ela mesma diz, prefere gastar o tempo olhando para o papel em branco e pensando em como preenchê-lo. Às vezes, ela o preenche falando sobre mulheres que adoram usar vestidos de gala e salto alto.

Ajeita o vestido, sorrindo, deixando bem claro que o posto que ocupa não é cotidiano. Letícia, em uma tranquilidade falseada, diz que não estaria ali não fosse por Frederico. Que, a princípio, recusou o pedido de entregar o prêmio a ele, durante a cerimônia em sua homenagem, porque não é das que se dá bem em público, com palavras ditas. Porém, dias depois de recusar o convite, teve uma conversa com Frederico na qual ele confidenciou a ela que acreditava, completamente, que não merecia o prêmio, tampouco a homenagem. Que a Europa é sempre sedutora, mas ele já conheceu as partes dela que lhe interessava. Que dois milhões de reais é muito dinheiro, mas ele não se importa em ter de manter a condição financeira atual, porque ela já é ótima por lhe permitir viver do que ama: escrever. Que descuidado como é, certamente acabará usando a placa como bandeja para servir café às visitas, por pura necessidade e sem qualquer desejo de ofendê-la, obviamente. E que homenagens deveriam ser prestadas aos heróis do cotidiano, aqueles que colaboram com a sociedade salvando vidas como os médicos, protegendo como a polícia, apagando o fogo como bombeiros. E aos pais de filhos que ainda aprenderão a vida e dependem deles para orientá-los. Não para homens como ele, distantes do que realmente importa na vida, que deseja somente viver do prazer de provocar emoções no outro. 

Escritores matutos gargalham baixinho mediante as palavras de Letícia. E ela continua, a voz não tão firme, e conta que há quase vinte anos, o namorado dela passou em sua casa, carregando um exemplar Desinteresse pelo interesse. Ele estava de mau humor, aborrecido mesmo por ter gastado alguns reais em um livro do qual não conseguiu passar da terceira página. Como havia detestado a leitura, achado o autor um grande idiota, palavras dele, ele decidiu dar a ela o livro. Em um primeiro momento, Letícia se sentiu ofendida, por que como ele poderia lhe dar algo que detestou? Porém, depois de não conseguir parar até ler várias vezes cada poema do livro, de amanhecer com o dia, ela foi até uma livraria e comprou os outros três livros de Frederico Duarte. O namoro acabou, mas a admiração dela pelo escritor, não. E quando ela se tornou assistente dele, pensou que não havia mais nada no mundo que pudesse desejar. Os seus livros são, literalmente, os meus de cabeceira. Mas acontece que escritores e artistas não costumam acreditar quando amigos ou familiares dizem “você importa, é merecedor do que recebe em troca do que cria”. Por isso estou aqui hoje.

Letícia faz um sinal ao técnico de palco, e então a cortina é aberta, revelando várias pessoas em pé. Os espectadores começam a falar entre si, curiosos sobre do que se trata tal espetáculo. Letícia pega o microfone e se aproxima da mesa de Frederico. Começa a ler, e a cada nome que diz, a pessoa dá um passo à frente para ser identificada.

Paulo Correa, professor de artes em uma faculdade. Ganhou um exemplar de “Tudo de bom mais ou menos” da irmã, e desde então, lê um dos seus poemas, antes de começar uma aula, usando-o como tema em dias de criação. Regina Martins, dona de casa. Depois de ler o poema “Deus só sabe a metade”, começou a fazer parte de um clube de leitura, e se antes era uma mulher que não sabia como se livrar da solidão, hoje é a amiga da Claudia, do Diógenes, da Jacira, da Manuela, do Luiz e da Greta. Jussara Constante, oceanógrafa. Fez uma viagem de barco que a manteve sozinha durante dias no meio do oceano. Não fossem os seus livros, ela não teria contemplado o céu como o faz o personagem Marcel Duvalier, do romance “Uma canção sobre sentimentos usados”. Pedro Tarciso, mecânico. Achou um exemplar de “Palavra certa dita em hora errada” em um dos carros que consertava. Ele o leu “de cabo a rabo, e em dois tempos”, como faz questão de frisar, e quando a Aline, a dona do carro voltou, eles discutiram horas sobre os poemas que mais gostaram. Pedro e Aline estão casados há cinco anos e são os pais do Marcelo e da Bárbara. Maura Fidelis, estilista. Leu “Quase tudo certo” quando estava na faculdade. Quando lançou a sua própria grife, usou os seus poemas, lidos por amigos, como trilha sonora do desfile. Esteve nos lançamentos dos seus últimos sete livros, tendo lhe roubado um beijo no lançamento de “Querer é contemplar”. Pede desculpas por não ter conseguido apenas contemplar, mas não se arrepende e já avisa que tentará repetir a dose.

Os espectadores descontraídos, gargalhando baixinho, emocionando-se com os relatos. Letícia encara Frederico.

Letícia Trindade. Há quase duas décadas mergulhou nas nuances do poema “Assombração é para assombrados” e assombrou-se por ter sido inspirada a começar a escrever os seus próprios poemas. Não há como contar a história de todos que estão aqui no tempo que temos. São vinte e três histórias admiráveis, cada uma delas tocada por um dos seus vinte e três livros. É por isso, Frederico Duarte, que você merece essa homenagem, merece a Europa, os espetáculos, o dinheiro, a placa. E mais que tudo, merece a nossa admiração. Você importa. Você nos importa.

Obviamente, Frederico Duarte não derramou lágrimas emocionadas, durante a cerimônia em sua homenagem, mesmo depois de Letícia lhe provocar taquicardia com tal performance de apresentadora de importâncias. Ele apenas sorriu e fez um gesto de agradecimento a ela. Depois, conversou com os seus vinte e três leitores.

Maura lhe roubou outro beijo, mas dessa vez ele revidou.

Quando se deitou em sua cama, na segurança da sua solidão e sob a maciez dos seus cobertores, Frederico Duarte agradeceu, mas não em voz alta. Foi assim, com a voz ecoando na cabeça: sou somente um homem que sonha demais e fala sobre isso em livros. A minha gratidão é para aqueles que me permitem embrenhar em seus espíritos por meio das palavras. E pouco antes de cair no sono, Frederico fisgou um pensamento que acabou por se tornar o título do livro que escreveria naquele ano: é importante importar-se com aqueles que acreditam somente na desimportância. 

Frederico nunca ligou para o tamanho dos títulos de seus livros.

Imagem: sxc.hu



Partilhar

2 comentários:

Neuma Queiroz disse...

Fascinante!!!!

Parabéns pela leveza das suas palavras!!

Abraço,
Neuma Queiroz

Carla Dias disse...

Neuma... Obrigada :)