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CORDEL DO QUASE DA VÓ BARANDINA >> Albir José Inácio da Silva

Eu quase que não nascia,
de força que me faltava,
não fosse a mão da parteira
que bem forte me puxava.


Eu quase que não vingava,
não fosse uma reza forte
da sogra da minha tia,
que brigou muito com a morte.


Eu quase que não falava,
não fosse uma tamancada
que me fez ver as estrelas
e vomitar as palavras.


Eu quase que não crescia,
não fosse a mãe tarimbada
arranjar carne de rã,
misturar com papa dágua.


Eu quase não estudava
não fosse o relho de burro
que na mão do professor
minhas costas trabalhava.


Eu quase não fico virgem
tão pura como nasci
não ganhasse na corrida
do filho do fazendeiro
saltando cerca de arame
pulando que nem saci.


Eu quase que não casava
com o meu Bento safado,
não fosse na última hora
um trabuco enferrujado.


Eu quase que não chegava
aos noventa, ano passado,
se não tivesse vencido
trabalho, patrão e marido,
mais tísica e maleita,
que não sou tipo que deita
para esperar pela sorte.
De pé eu brigo com a vida,
de pé pelejo com a morte.



Não devo nada pra dita
nem ela me deve nada.
Quase que eu não vivia,
é verdade, mas só quase,
que eu sou muito
mas é danada.

Comentários

Zoraya disse…
Albir! Ficou sensacional! Dá até para musicar, uma lindeza que ficou!Beijos repentistas
Carla Dias disse…
Adorei, Albir! Era como se escutasse um repentista enquanto lia. Beijo!
Concordo com a Zoraya: dá música! Além de ter ficado uma crônica-biografia perfeita!
albir disse…
Zoraya, Carla e Eduardo,
vocês musicam tudo que leem, tão forte é a arte em vocês. Beijo.

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