quarta-feira, 11 de julho de 2012

HOJE NÃO >> Carla Dias >>


Minha sobrinha está apaixonada por cavalos, quer dizer, pelos cavalos que conseguiu domar em um jogo de computador. Falando sobre eles, até parece que ela está cavalgando em animais de verdade, de tanta beleza que ela enxerga nessas criaturas, de tanta aventura em correr em vastos campos-pixels. Uma dessas criaturas, em especial, recebeu o nome de Bronze, por causa da sua cor. É um cavalo, mas esse vem de um lugar no qual as meras cercas não delimitam. Bronze é cavalo alado, tem asas e trará minha sobrinha até minha casa em dia de domingo. Pousará na minha área de serviço, sobre a máquina de lavar e voltará mais tarde para buscá-la, porque Bronze não gosta de tetos, então prefere esperar do lado de fora da casa, dando carona aos passarinhos preguiçosos.

Quando me apaixonei pelo pôr do sol, ainda era menina. Naquela época, não sabia dizer imaginação como as crianças de hoje. Eu fui uma menina de imaginação aguçada, mas de boca calada, que revirava realidade e escondia dela minhas invenções. Porque até um dia em que ninguém morreria eu decretei. Ninguém que eu conhecia, ninguém que me era estranho, ninguém do bairro, da cidade, do país, do mundo. Ninguém ninguém morreria nesse dia, e nem passarinho, nem lagartixa, de jeito nenhum galinha morreria. Para tanto, bati papo com a morte, eu sentada num tronco de árvore morrida – mas antes desse dia – e ela escorregando sobre as nuvens, olhar manhoso, de quem sente solidão, então vive a roubar companhia da vida. Só que não nesse dia.

Para alcançar o meu propósito - e era dia de sol quente e sombra de árvore -, esperei até que um silêncio profundo se apossasse da tarde. Então, subi na árvore, pendurei-me nos cabelos embaraçados da morte e sussurrei doçuras no ouvido dela. Lembrava-me de quando era pessoa que andava em colos de mãe, pai, tios e tias, avôs e avós, e como não sabia dizer palavras, bastava resmungar que já vinha alguém para me dizer doçuras. Naquela época, as pessoas me pareciam muito mais gentis e entusiasmadas com a vida. Trabalhei duro para não perder algumas das doçuras que recebi e sabia que o trabalho todo valeria a pena um dia. E valeu, nesse dia em que decretei que a morte tiraria folga e ninguém morreria, mas nem girino, papagaio, plantinha, nem membros da família, tampouco amigos. Promessas não morreriam, tampouco sonhos. E a vida bancou a fanfarrona rebordosa e mergulhou na eternidade de um dia.

A doçura dita escorregou pela alma em vida da morte, que me encarou com olhos esbugalhados e lábios apertados. Fiquei pasma com o momento, jamais imaginei a morte fragilizada por um par de doçuras. Pensei somente que ela atenderia ao meu desejo só para que eu a deixasse em paz, porque, antes das doçuras, eu tentei acabar com a paciência dela cantando, bem alto, todas as canções alegres que eu conhecia e com direito às coreografias mais animadas. Mas a morte ficou miúda, miudinha, e deitou sua cabeça cansada no meu ombro miúdo, miudinho. E quando soluçou pela primeira vez, meu corpo ficou tenso, eu não conseguia me mexer. E quando suas mãos macias e geladas seguraram o meu rosto, e ela precisava que eu a olhasse nos olhos, aconteceu o dia em que nenhum tipo de alguém morreu, nem lambari, tatu, árvore, nem mesmo formigas, gatinhos ou girassóis. Havia tanta vida naquele olhar, vida acumulada pelas colheitas da morte. Havia alegria, tristeza, doçura, amargura, mágoa, perdão, era uma mistura insana do tudo que, por mais que nos esforcemos, jamais conseguiremos decifrar. E a morte, comovida com as doçuras que lhe ofertei, permitiu-me ter esse dia, o dia em que ninguém morreu, nem o alguém-estrela, sorriso, promessa, nem mesmo os sonhadores, nem os solitários.

Nem mesmo o dia morreu. A noite chegou a pleno dia, tomando um pedaço do céu para pintar sua presença, colocando lado a lado o sol e a lua. E a morte, desprovida da frieza necessária para ser a ceifadora da vida, adormeceu nesse dia nos braços do tempo, pedindo que ele a acordasse quando fosse hora de voltar para a lida.






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6 comentários:

jose claudio disse...

Oi, Carla.

Um dos meus maiores desejos é escrever crônicas poéticas como essa sua. Isso, porém, é coisa de quem possui uma imaginação enfeitada, de quem com os pés no chão vai lá nas nuvens e traz a visão lá de cima, ampliada, com direito a todos os coloridos que a vista alcançar.

Linda, lindíssima a sua crônica. Meu abraço. paz e bem.

Miriam Castilho disse...

Ah, que beleza de texto!
Quanta sensibilidade misturada a um toquezinho de humor que torna as palavras leves...
Gostei muito, parabéns!
MIRIAM CASTILHO

Zoraya disse...

Poesia em altas doses!

albir disse...

Carla,
sua poesia não cabe numa única forma de arte. Transborda dos versos, invade a crônica, atravessa a música e se instala em nós.

Zoraya disse...

Carla, você anda destilando poesia suave. Um toque de fada em vidas cansadas. Obrigada.

Carla Dias disse...

José Claudio... Adorável o seu comentário. Então que me faltam palavras para agradecê-lo pela gentileza de embarcar na viagem dos meus escritos. Obrigada.

Miriam... Muito obrigada pela leitura. Fico feliz que tenha gostado.

Albir... Sempre achei a poesia o jeito mais íntimo de se escancarar com as ideias, com os sentimentos. Ela estará, sempre, presente nos meus escritos, porque através dela aprendi a prosa.

Zoraya... Às vezes mergulho em abismos poéticos, mas é o ‘toque de fada em vidas cansadas’ que mais me fascina. A gente pode sofrer o diabo e escrever sobre isso, mas no final do dia, ainda almejamos algo mais doce para as nossas vidas.
Obrigada a você :)