domingo, 29 de julho de 2012

ESCREVA BONITO
>>Eduardo Loureiro Jr.

Àqueles que me ensinaram a escrever

Minha relação com a escrita não começou de forma promissora. Embora eu fosse um ótimo aluno nos tempos de colégio, minhas duas únicas notas abaixo de cinco, em toda a minha história escolar, foram justamente em Português, Redação, Ditado, ainda no 4º ano primário.

Alguns anos depois, quando o professor Tavares me devolveu uma redação com um 10 no topo da página, fiz uma cara de tanta surpresa que acho que ele pensou em reconsiderar a nota. Não faço a  mínima ideia do que escrevi ou de como escrevi algo merecedor da nota máxima. Naquela época meus interesses eram voltados principalmente para Matemática e Geometria.

A principal responsável pela minha aproximação definitiva com a literatura foi uma namorada, Giovana, que estudava no mesmo colégio que eu. Além de me apresentar àquele que, ainda hoje, é meu escritor favorito, Fernando Pessoa, Giovana tinha o hábito de me escrever pequenos bilhetes, aos quais eu respondia. Os bilhetes foram se transformando em poemas, alguns até em canções. Estava nascendo ali um escritor, embora eu não desconfiasse disso.

Logo que entrei na faculdade — de História, já que não me ocorreu fazer Letras —, fiz uma pequena oficina de contos e poemas com os escritores Isa Magalhães e Dioguinho. Durante aquela rápida semana, aprendi duas coisas importantes: que é possível melhorar um texto para além da inspiração e da emoção que o originou; e que a convivência com outros escritores ou aprendizes de escritor contribui para a quantidade e a qualidade de nossos textos.

Foi a convivência com um escritor, na época "apenas" um amigo, hoje um verdadeiro irmão, que causou o maior impacto em minha vida literária. Fabiano dos Santos, meu caro amigo Fabiano, me fez provar o gosto que as palavras têm por meio de versos como "Você passou / e feito pluma / jogou / um beijo em mim / me deixando assim / feito criança / quando ganha brinquedo. / A pluma bateu / no meu vidro / quase quebrando / o meu medo". Fabiano, meu mestre em poesia, me mostrou, por A mais Z, que é possível escrever bonito.

Quatro anos depois, já formado Professor de História, tive minha primeira "aluna" de escrita, coincidentemente uma namorada, Andréa. Meu método consistia unicamente em fazer Andréa escrever, já que ela tinha um talento natural para o ofício. Mas minha amada aluna, que morava em Brasília enquanto eu morava em Fortaleza, escrevia pouco, não preenchia sequer uma página inteira de bloco de carta. Impus a ela um acordo: eu escreveria para ela tantas linhas quanto recebesse dela em sua carta anterior. Querendo ler mais o que eu escrevia, Déa passou a escrever mais. Ganhamos os dois.

Nos anos subsequentes, publiquei meus primeiros livros: uma coletânea de cartas (em parceria com Fabiano, Déa e outr'Os internos do pátiO) e dois livros para crianças. Também fundei o Crônica do Dia, que há 14 anos agrega tantos escritores talentosos. No compromisso de escrever crônicas semanais, desenvolvi para mim mesmo vários exercícios de estimulação da criatividade e de refinamento do texto.

Mas só passei mesmo a me sentir escritor, com mais segurança, após fazer uma formação em Dramaturgia com duração de um ano e meio. No Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual, aprendi muito com mais de uma dezena de professores e com outros tantos colegas tão inspirados quanto dispostos a trabalhar sobre seus textos.

Após novos livros — infantis, acadêmicos e de crônicas — resolvi ministrar uma oficina de escrita criativa em Fortaleza há dois anos. Naquela semana também muito rápida, creio que ensinei uma ou duas coisas importantes a meus alunos. Até pessoas que não moravam em Fortaleza manifestaram o interesse de fazer a oficina.

E cá estou hoje, escrevendo minha crônica de domingo, sempre na batalha por colocar um pouco de formosura em minhas palavras, e às vésperas de iniciar, finalmente, uma nova oficina, dessa vez online, e com um nome mais adequado à beleza que sempre admirei em meus queridos professores de escrita. Faz inverno na minha barriga pouco antes de iniciar a Oficina de Escrever Bonito.

Assim a vida segue, e seguirá, até que, como escreveu Leminski, "vai vir o dia / quando tudo que eu diga / seja poesia".

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4 comentários:

albir disse...

Edu,
não lhe falta autoridade para conduzir uma oficina com esse nome. E você está também muito perto de cumprir a previsão de Paulo Leminski. Abraço e parabéns por mais essa.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Albir. De tanto conviver com gente que escreve bonito, a gente vem aprendendo. :)

Anônimo disse...

Olha só quanto coisa de bom a escrita traz, hein?
Embora eu não seja mais atuante, serei sempre sua leitora. Ê sorte!
beijos!
Kika

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, com uma leitora dessa categoria dá vontade de escrever ainda mais. :)