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O Resgate do Samba [Carla Cintia Conteiro]

Sou daquele tipo que fica com os cabelinhos da nuca arrepiados ao ouvir sobre o resgate de alguma coisa no contexto cultural. Não é por nada não, só que concordo com quem diz que se alguma manifestação cultural está desaparecendo é porque perdeu seu significado, sua representação simbólica para o grupo que a praticava. Vale registrar como documentação histórica, mas movimentos como revitalização da tradição por quem não foi criado nela me soa como triste pantomima, lamentável pastiche. Ou, como bem definiu Oswald de Andrade, macumba para turista.

Então observo com interesse cético essas rodas de samba nos morros recém-pacificados da Zona Sul carioca. É sempre bom ver que as fronteiras se dissolveram e que o sobe e desce agora é fluente, mas a juventude bem intencionada da PUC me parece equivocada ao achar que está incentivando o “resgate” do samba nas comunidades “corrompidas” pelo funk, forró universitário, tecno brega e outros ritmos fora do rótulo de genuíno ou cult.

Esses moços esquecem, talvez, que os morros da Zona Sul têm uma história diferente da daqueles do Centro e da Zona Norte do Rio. Estes foram ocupados por negros e mulatos que não tinham para onde ir depois da Abolição da Escravatura, do Bota-Abaixo do prefeito Pereira Passos ou no retorno dos soldados de baixa patente da Guerra do Paraguai, entre o final do século XIX e início do XX. Ali inventaram ou geraram quem inventou o samba urbano como o conhecemos hoje, fundaram as primeiras escolas de samba, enfim criaram a base do ziriguidum contemporâneo. Antes que algum leitor baiano se manifeste em protesto, sim, devemos muito às tias baianas e suas festas seminais.

Entretanto, na Zona Sul, os morros foram ocupados, ao longo do século XX, primordialmente pelos migrantes nordestinos que precisavam ficar perto das suas fontes de renda no asfalto sempre muito valorizado nas proximidades do Oceano Atlântico. Aqui e ali, surge uma exceção para confirmar a regra, como a São Clemente e a Unidos da Rocinha, mas escolas de samba, por exemplo, nunca foram uma tradição da região litorânea da cidade. Excluindo um núcleo forte em Botafogo, conhecido como a área mais suburbana da Zona Sul, onde surgiram nomes como Paulinho da Viola, Walter Alfaiate, Beth Carvalho e outros bambas, pouco se tem notícia da tradição sambista por aquelas bandas.

Assim, não entendo o desalento da juventude universitária diante dos estilos populares que se ouvem nas vielas. Faz tempo que o samba é classe média, cultuado dentro de um saudosismo do que seja a pureza da cultura nacional. O Brasil de gosto duvidoso não é considerado autêntico. Não vou me estender sobre esse assunto, Antonio Prata já falou disso lindamente em sua crônica “Bar ruim é lindo, bicho!” 

Portanto, subamos o morro, cantemos, dancemos e confraternizemos, mas não vamos nos iludir. Não estamos entregando o filho samba há muito sequestrado por vilões anti-cultura popular pura a pais saudosos na comunidade. Estaremos compartilhando nossa cultura com irmãos brasileiros de cultura diferente, de história diferente, de formação diferente da nossa. É bem provável que eles gostem e incorporem o “samba de raiz” ao seu vasto repertório de estilos. Contudo, apesar da extemporânea e escandalosa vigência da Resolução 013, que sujeita a realização de bailes funk e, consequentemente, qualquer atividade festiva e cultural à aprovação prévia da Polícia, este e outros sons considerados menos nobres continuarão agradando o povo das comunidades.

Comentários

albir disse…
Tem razão, Carla. E não esqueçamos que o samba, tão cultuado hoje pela elite cultural, não foi menos desprezado e reprimido que os movimentos hoje marginais. À margem de quê? Ou marginal pra quem?
Carla Dias disse…
Muito bacana a crônica, Carla. E verdadeira. Beijos!
Muito bom, "professora" Carla Cíntia!

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