quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

COMO TEM DE SER >> Carla Dias >>


Sentiu fome, então engoliu duas bolachas de água e sal, repetindo, mentalmente, que manteiga está fora da lista dos alimentos saudáveis. Minutos depois, enquanto aguava as plantas, o seu estômago reclamou que a fome era maior e duas bolachinhas de água e sal não tapariam a sua boca. E a boca do estômago é desaforada. Sempre foi. Quase sempre atazana a gente por causa do que sente o coração. Então, recorreu ao micro-ondas, porque o tempo urge, lembrando-se, como se pescasse uma história muito importante do seu passado, do remédio para diabetes. Engoliu os comprimidos com refrigerante, tentando se convencer de que estava a um passo de se tornar alguém com um ritmo de vida mais saudável. A sensação durou os cinco minutos que levou para devorar a mini pizza, porque depois foi a culpa que tomou conta.

Tomou um banho demorado, daquelas demoras de quem não quer sair de debaixo do chuveiro nunca mais. De quando a água abafa o zumbido da realidade que já não se consegue conduzir com o mesmo esmero de quando se é jovem o suficiente para que os sonhos ainda façam sentido, mesmo os mais improváveis. A água morna espancando seu corpo com a delicadeza das gotas massageia seu espírito esportivo. Declama, aos ausentes, que vai ficar tudo bem.

Senta-se defronte à tevê e sintoniza no programa preferido. Abre a revista e começa a ler notícias das celebridades, enquanto cantarola uma música da qual nem mesmo gosta, mas decorou por desgosto, e está sendo tocada no apartamento de cima... E bem alto, como se o baile fosse no bairro. Repreende o repórter do programa preferido por ter feito pergunta idiota. Critica as notícias publicadas na revista. Diz “cruz-credo-ave-maria” ao tentar tirar da cabeça o refrão da música da qual não gosta. E em um lampejo compreende que raramente sai de casa, que se tivesse de sair agora, não faz ideia de aonde iria.

Só que a sua imaginação segue a um passo a frente.

Vai para Marte, dá uma passadinha em Júpiter, compra um colar de estrelas. Na sua viagem, alimenta-se de silêncios, porque não é preciso dizer em lugares como esses. Basta sentir, pensar. Volta para a Terra  sendo atraída pelo grito da campainha. Hora de pagar o aluguel, discutir um tantinho com o senhorio sobre as providencias que precisam ser tomadas, já que o encanamento do prédio está de matar de desgosto qualquer inquilino. Fecha a porta, a voz aguda do senhorio ainda reverberando na sua cabeça, vai direto até a cozinha. Vinho tinto... Uma taça, duas, três, a garrafa.

Languidez, embriaguez, desvario. Esparrama-se sobre a cama king size, relembrando como imaginou ali, a lhe servir mil e tantos carinhos, o vizinho do apartamento 57. Um sujeito inventado, porque o seu prédio tem apenas 3 andares, 6 apartamentos. Um sujeito oculto, porque para ele não conseguiu imaginar um rosto. Um sujeito que não oferece qualquer perigo a sua realidade.

Benzeu-se duas vezes, para garantir que não errou os sinais da primeira. Jogou búzios, cortou as cartas do tarô, mergulhou nos significados das runas e confiou seu amanhã ao caminho apontado pelo I Ching. Sentou-se no meio da sala, posição de lótus, meditou, entoou mantra, imaginou como seria uma boa conversa com uma divindade, meditou e no meio da meditação fez as contas do supermercado. Pediu desculpas aos deuses pela distração mundana, tentou se concentrar e, sem sucesso, desfez a posição de lótus, esticou-se no tapete, espreguiçando-se até sair um som de sua boca que mais parecia uma breve canção arranhada sobre o prazer. Pensou novamente no vizinho do apartamento 57. Talvez, seja hora de se mudar para um apartamento em um prédio que tenha o número 57.

Dormiu, não sonhou, pulou da cama. Banho, café e duas bolachas água e sal, e logo depois algumas colheradas de sorvete de creme. Conferiu se o gás estava desligado, a torneira bem fechada, a janela com cadeado. Parou no meio da sala, olhou a sua volta, respirou fundo, repetiu para si mesma que a vida que tem é a que merece. Antes de sair, benzeu-se uma vez – porque é dia de exercitar a confiança em si mesma. Só que, depois de trancar a porta e ficar um bom tempo parada do lado de fora, abriu-a novamente, entrou no apartamento, verificou se desligou o ferro da tomada, se as luzes estavam apagadas. Antes de sair, benzeu-se três vezes: uma a mais para garantir e outra de penitência por não ter se benzido duas vezes da primeira vez.

carladias.com


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2 comentários:

albir disse...

Não é só a imaginação da sua personagem que segue em frente, Carla. A nossa também te acompanha sempre que você convida.
Feliz Ano Novo pra você e continue sempre por aqui,no Crônica do Dia.
Beijos!

Carla Dias disse...

Obrigada, Albir. Um lindo ano para nós! Beijo.