segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

LIMITES DO TEMPO E DA RAZÃO >> Albir José Inácio da Silva

Sob o olhar espantado de uma velhinha, eu falei sozinho na rua. Não estou maluco, embora reconheça que tal afirmação não prove saúde ou lucidez de ninguém. Não é a primeira vez que acontece. Há meses percebo que as pessoas me olham na rua com um interesse quase científico. Mas isso vai mudar.

Não gosto quando me chamam atenção por isso. No início não acreditava e dizia que louco era quem me acusava. Mas tive de reconhecer. Além de vários testemunhos, chegaram até a filmar um de meus solitários discursos. Mas continuo não gostando. Por que não se metem na sua vida? Vida deles, quero dizer, não se ofenda leitor, isso não é com você que nunca me viu ou acusou de falar sozinho.

Claro que a minha fala não é para ser ouvida, se fosse eu falaria com alguém. Geralmente é na rua que falo mais porque em casa fazem muitas perguntas. As pessoas admitem tudo, menos que alguém fale sozinho. Ora, se eu quero, ou preciso, conversar comigo, com quem devo falar? Ou não devo conversar comigo?

E há coisas que não posso falar pra ninguém, a timidez me impede. Outras, não devem ser ouvidas. “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”, diz Humberto Eco. Se eu fosse os engraçadinhos que andam por aí me sacaneando, pensaria duas vezes. Tenho certeza de que não gostariam que eu falasse em público um décimo do que ando falando sozinho.

Falar sozinho tem suas vantagens. Ninguém nos interrompe só porque se lembrou de uma bobagem qualquer e nos deixa de boca aberta durante longos minutos para depois pedir que continuemos quando já esquecemos até o próprio nome, como se fosse fácil retomar, sem prejuízo, um raciocínio brilhante. Por que fingem nos ouvir se é tão desinteressante o que dizemos?

Falaram sozinhos todos os grandes mestres e pacifistas que já pisaram neste planeta. E como eles sou incompreendido. Não que eu tenha coisas interessantes pra dizer. São coisas comuns, do homem comum que sou. Mas o fato de, como eles, não ser ouvido, sugere que eu também seja grande.

Até um terapeuta já consultei pela insistência das pessoas de que isso não era normal e que estava piorando, que falar sozinho é indício de coisa mais grave, que quando eu me desse conta já não poderia controlar, e outras ameaças que ouvi por um hábito tão ingênuo.

Ele disse que eu precisava me ocupar com outras coisas. Substituir essa fala solitária por outras atividades, e conversar mais... com as pessoas. Que devia me policiar porque esse comportamento deixa as pessoas confusas e que isso as afasta de mim.

Nos últimos meses, um agravante: gestos têm acompanhado a minha fala. Isso tem despertado maior atenção dos passantes. Agora não só me olham, riem também. Quando falam as pessoas não gesticulam? Por que deveria eu falar só com a boca? E o que há de engraçado nisso?

É tempo de renovação, de avanços e de curas. Acabou o ano e o que ele teve de bom foi usufruído, mas o que não funcionou precisa ser mudado. Já incluí entre as metas pro futuro evitar atitudes constrangedoras como essa. Já sinto alguma melhora. Estou seguindo o conselho do terapeuta. Substituição é a palavra, e escrever tem me ajudado muito. Em vez de falar, estou sempre escrevendo. Não observei ainda que efeito isso tem sobre as outras pessoas, mas sigo escrevendo. Na rua, no ônibus e até em casa.

Essa crônica mesmo, que depois tenho de digitar, está sendo escrita no ar com o indicador da mão direita. E não poderia ser diferente, já que sou destro desde que me entendo por gente.


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4 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Instigante. No mínimo instigante Albir. Todo aquele que se comunica é, um pouco, incompreendido. E não me refiro à matéria que o infeliz deseja comunicar, mas o desprezo já começa quando o comunicador se aproxima e é reconhecido. Ainda antes que tenha dito ou escrito algo. Parabéns amigo!

silvia tibo disse...

Siga escrevendo, registrando no papel suas conversas consigo mesmo. E nos presenteando, assim, com seus belos textos! Grande abraço.

Zoraya disse...

Lançarei uma campanha: "proteção já para os que pensam em voz alta", e nem pensem que advogo em causa própria. Por que temos de ser iguais? Isso mesmo, Albir, siga o conselho da Silvia, fale em voz alta e escreva de guarda baixa, para que possamos usufruir da beleza de seus pensamentos escritos.

albir disse...

Obrigado. Como diz Carla Dias é só um flerte com a loucura.