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RELEVÂNCIA >> Carla Dias >>


A senhora passa declamando o acontecimento na cadência de dialeto de quem tem preguiça de pronunciar todas as letras, como se as engolisse ao dizê-las. Só que os palavrões são praticamente gritados. O pipoqueiro, que atende em frente ao cinema, sente-se traído pela novidade e praticamente engole um pacote de pipoca doce para tapar o buraco no estômago causado por ela. Não adiantou, ele se dá conta, enquanto planeja uma seção de exercícios para queimar as calorias extras.

O moleque, com boca cheia de biscoito esfarelado, eficazmente afanado da cozinha do amigo e quase sob o olhar de braveza da mãe dele, jura pelos santos que o pai idolatra que é isso mesmo. Engasga a secura do biscoito, a mãe do amigo o acode com uns tapinhas frouxos nas costas. O apresentador do programa de variedades desata o nó da gravata e se senta, desprovido dos modos dos apresentadores de televisão, em um degrau do cenário. Está extasiado e temente ao acontecimento, pensando que, talvez, seja hora de evoluir e abraçar o desejo de se tornar cineasta.

O financista se sente extremamente incomodado ao saber de tudo. Muitas são as perguntas que pipocam na sua cabeça, mas ainda assim a lógica prevalece, e ele começa a questionar os envolvidos sobre o impacto de tal coisa na coisa que é a vida de cada um. Qual será o parecer dos especialistas do mercado financeiro? Como reagirão os líderes religiosos? Será que sua esposa o deixará, finalmente, passar as férias sozinho? Qual a porcentagem de bondade e de maldade o ocorrido pode despertar?

Há muita gente apostando que tem a ver com o uso indevido de prazeres, como o de tornar coletivas informações sobre as próprias preferências de higiene ou do desejo incontrolável de comprar isqueiros, mesmo não sendo fumante. A mulher deixaria de falar em dialeto para solicitar sais de banho, porque gosta da ideia de como eles acalmam a pele, de acordo com o anúncio na revista sobre os próximos capítulos das novelas. O pipoqueiro voltaria a fumar escondido, só para poder usar um Zippo Lucky Ace novamente. O moleque engoliria a bolacha rapidinho ao se dar conta de que poderia ter roubado o xampu que anda faltando na sua casa. O apresentador de programa de tevê se deslumbraria, numa piscadinha, pelo isqueiro com a foto de Marilyn Monroe estampada nele. O financista calcularia o lucro sobre a venda dos produtos.

A moça - que ainda confabula com si mesma sobre ter colocado como senha do seu cartão de débito a data de nascimento daquele a quem ama em segredo - vê-se profundamente tocada pela revelação. Seus músculos se retesam, a pele se arrepia, as pernas bambeiam, os olhos marejam, e assim que ele se aproxima dela – ele, o moço que é o amor secreto da moça -, perguntando por que ela está tão pálida e chorosa, ela permanece alguns segundos em silêncio, encarando-o. Então, ele coloca a mão sobre o ombro dela, lançando-lhe a eletricidade da urgência e despertando na moça a coragem dos que não têm nada a perder.

A moça se joga nos braços do moço e lhe beija os olhos, como se lhe roubasse horizonte. A moça segura o rosto do moço entre as mãos e lhe diz a própria data de nascimento. O moço comenta que adora o mês em que ela nasceu. A moça beija os lábios do moço como se lhe furtasse a existência. Beijo digno de filme de cinema, que deixa zonzo o moço, sempre tão contido, e os transeuntes, abobalhados. Alguns também ficam invejosos. A moça conta tudo ao moço ao pé do ouvido, enquanto roça os dedos na nuca dele. O moço fica pasmo, pasmando muito enquanto a puxa pela cintura, querendo é mais proximidade, esquecendo disso e daquilo, criando novas lembranças.

Todos olham para a moça e para o moço como se eles fossem personagens de cena final de filme romântico. E enquanto eles se abraçam e se beijam sem previsão de fim, a mulher engole o dialeto e os palavrões, os olhos lacrimejantes ao se lembrar de quando era ela naquela cena. O pipoqueiro sorri largo e fecha seu carrinho, para ir cedo para casa e assistir Casablanca. O moleque promete a si que irá moderar na afanação de biscoitos da casa do amigo. Quer ser adulto decente para conquistar uma mulher bonita. O apresentador pensa em um enquadramento que possa beneficiar o roteiro que nasce, neste momento, inspirado pelo moço e a moça. E o financista decide voltar para a casa, mesmo que ainda seja cedo, só para namorar um pouco, antes de mergulhar novamente nos desafios da Bolsa de Valores.

Muitos acham que esse tempestuoso fato está ligado à falta de fé do ser humano. Que Deus está dando uma dura nas suas crianças, fazendo com que entendam que ele está cansado de levar a culpa pelo o que eles fazem. Já eu acho que tem a ver com atenção. A não darmos tanta atenção ao que realmente não importa.

A moça sorri para o moço que lhe sorri de volta.

Imagem: sxc.hu


Comentários

Zoraya disse…
E novamente Carla flagrando pequenos momentos da vida e mostrando o quanto eles são, realmente, grandes. Beijos.
albir disse…
Você é precisa, Carla, quando se trata deidentificar o que é relevante.
Carla Dias disse…
Zoraya... Beijos e obrigada.

Albir.... Obrigada e beijos.

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