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O MITO DA IGUALDADE >> Whisner Fraga

O mito da igualdade racial no Brasil sempre vem à baila quando os políticos resolvem tomar alguma medida para tentar minimizar as injustiças sociais que reinam em nossa sociedade. Recentemente, pudemos acompanhar a aprovação de uma lei que prevê uma reserva de 50% das vagas nas universidades federais para alunos oriundos do sistema público de ensino. Há bons argumentos de ambos os lados e os que são contra defendem que o ideal seria investir mais na educação básica, que a aplicação da lei provocará uma distorção muito grande no acesso ao curso superior, que todos somos iguais perante à lei, que os ricos pagam muitos impostos e só porque seus filhos estudam em escolas particulares, não podem perder o direito ao ensino de qualidade, encontrado, hoje, principalmente nas faculdades públicas.

Do lado favorável, há o reparo de desigualdades que se acentuam cada vez mais com o fato de que os pobres não têm acesso à educação de qualidade, a esperança de que, com esse incentivo, os alunos carentes valorizem sua formação, se esforçando para ser bons profissionais, a melhora do nível de conscientização e cidadania da sociedade em geral, uma vez que uma parte marginalizada da população começa a ter um acesso a um bem que sempre lhe foi negado (o absurdo de que pobre deve ter educação para pobre), estudos de pesquisadores renomados atestando que o nível de qualquer curso não cai com a chegada desses novos alunos.

Há bons motivos de ambas as partes, mas é claro que eu fico com os que são favoráveis à medida. Há poucos dias também, a nova Ministra da Cultura, Marta Suplicy, andou cutucando a presidente para que ela olhasse com mais carinho a questão dos negros. Acho que foi uma das pouquíssimas coisas boas que Suplicy fez. É necessário que se criem cotas para os negros sim, que foram privados, pelos brancos, do contato com os bens culturais da humanidade. Não só culturais, evidentemente. Assim, em breve, teremos ações políticas que garantam financiamento de projetos culturais de negros. Editais exclusivos para negros: palmas para a Ministra.

Outra notícia rondou os jornais esta semana e eu fiquei muito contente com o fato. Dilma sancionará, logo, uma lei que prevê cotas para negros em concursos públicos. Perfeito! Acho que é muito pertinente a medida e necessária. Da mesma forma, existem bons argumentos contra e a favor, mas uma coisa é certa: muitos do que são contra, escondem por trás da ação o preconceito. Isto é, negro pode fazer papel de empregado em novela, pode vender água na praia, pode engraxar sapatos pelos bairros, mas não pode vestir um paletó de advogado ou um jaleco de médico e exercer uma profissão “de branco”, que já acham que a sociedade está perdida. Ou seja: é evidente que não existe igualdade racial no Brasil e que os brasileiros são preconceituosos.

São poucos os que não se assustam quando veem uma negra beijando um branco. Quem é que não ouve piadas sobre negros quase cotidianamente? Outro dia fiquei horrorizado, quando um senhor, ao ver um casal se abraçando (ele negro, ela branca), comentou comigo: não é que eu seja racista, mas que isso aí é feio é. Como se a frase “não é que eu seja racista” bastasse para que o sujeito deixasse de ser intolerante.

A questão é interessante e não se esgota em uma crônica, é lógico. Mas eu queria deixar registrado que sou a favor de qualquer política de cotas e que me sinto muito à vontade para discutir o assunto com qualquer pessoa. Está na hora de mudar este país, de torná-lo um lugar mais justo, com pessoas que convivam (de fato) com harmonia com todas as diferenças que encontram por aí.

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