sábado, 8 de dezembro de 2012

CASAS CONTAM HISTÓRIAS [Debora Bottcher]

Toda casa tem sua história.

A casa do meu pai, construída no fim da minha adolescência, foi projetada com base no sonho de envelhecer, com filhos e netos ao redor. Quatro suítes, quatro salas, jardim de inverno, garagem para oito carros e muito espaço no último terreno de uma rua sem saída, são agora um labirinto de memória. Nas paredes, ainda se vê as sombras dos anseios que se fizeram meia verdade: os filhos (raramente) se reúnem junto aos netos, e envelhecer, para ele, estancou-se no tempo e é herança da minha mãe, junto com a solidão.

Tudo ficou grande demais. Entretanto, porque a lembrança é um poço de onde se pode retirar qualquer imagem, é possível enxergar, pelas brechas, a alegria da casa cheia, das festas de fim de ano regadas a champanhe, os almoços de páscoa, os aniversários e reuniões muitas em torno da mesa imensa - que sempre foi símbolo de união, riso e lágrima, conversas sérias e as nem tanto.

Eu me lembro... E lembrar desperta em mim, como sempre, a imensa contradição que há entre a ausência física - que gera saudade -, e a presença eterna desse homem que me amou primeiro.

* * *

Mas agora eu tenho minha própria casa. Ela é menor, mas igualmente projetada no sonho do meu pai - que, aliás, deve ser o sonho de muita gente. Alguém vai dizer que eu não tenho filhos. É... Mas eu tenho netos. E quem não me conhece bem, vai pensar que isso é impossível. Depende da amplitude do olhar...

Na minha casa, a história ainda se faz. Aqui, filhos do meu marido (cinco, meus enteados) se reúnem conosco - um de cada vez ou todos juntos. Aqui, as crianças, os netos, brincam pelo pequeno jardim, colhendo flores, folhas e morangos para uma sopa imaginária. A gente faz pipoca, brinca de esconde-esconde, lê ou conta histórias e dorme no fim da tarde quando está frio. Aqui, a gente pinta as unhas, costura tiaras e bonecas, assa bolo e frita churros. Faz brigadeiro e doce de leite. Lava a louça a muitas mãos - grandes e pequenas. Aqui, não tem brinquedos: a gente inventa diversão com miniaturas de porcelana, fitas, baldes e colheres de pau. A brincadeira maior é o vovô quem faz...

No futuro, quando entrarem nessa casa, eu espero que ouçam suas vozes e risadas - como me acontece quando entro da casa do meu pai. Desejo que o que hoje se vive aqui, esteja escrito, demarcado, registrado - pelas paredes, através da escada, nas pedras do quintal, no perfume do ar -, como lembrança boa e feliz na memória de todos.

E que a história dessa casa, desenhada com tantos lápis, de tantas cores, fique tatuada nas lembranças ternas dos que partilham da alegria que aqui sempre habita...



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6 comentários:

Zoraya disse...

Débora! Que lindeza, que riqueza, que maravilha detexto. Impressionante como tem gente (como você e a Carla daqui) consegue transformar coisas belas em mais belas ainda. Beijos

Vanderley José Pereira disse...

gostei, achei lindo, tem a beleza que só as saudades do passado mostra

Debora Bottcher disse...

Obrigada, gente... Toda casa tem história, né? A de vcs não é diferente, vcs só têm que contar... :) Beijos.

Ana González disse...

Lindas histórias que se esbarram, Débora, a sua e a de seus antecedentes familiares. Só que a sua é para o futuro. Muito lindo!!!bjss

silvia tibo disse...

Coisa linda, Débora... :)

Carla Dias disse...

Que texto bonito, Débora...
Acho que sim, uma casa pode ser um álbum de memórias. Beijo!