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CASAS CONTAM HISTÓRIAS [Debora Bottcher]

Toda casa tem sua história.

A casa do meu pai, construída no fim da minha adolescência, foi projetada com base no sonho de envelhecer, com filhos e netos ao redor. Quatro suítes, quatro salas, jardim de inverno, garagem para oito carros e muito espaço no último terreno de uma rua sem saída, são agora um labirinto de memória. Nas paredes, ainda se vê as sombras dos anseios que se fizeram meia verdade: os filhos (raramente) se reúnem junto aos netos, e envelhecer, para ele, estancou-se no tempo e é herança da minha mãe, junto com a solidão.

Tudo ficou grande demais. Entretanto, porque a lembrança é um poço de onde se pode retirar qualquer imagem, é possível enxergar, pelas brechas, a alegria da casa cheia, das festas de fim de ano regadas a champanhe, os almoços de páscoa, os aniversários e reuniões muitas em torno da mesa imensa - que sempre foi símbolo de união, riso e lágrima, conversas sérias e as nem tanto.

Eu me lembro... E lembrar desperta em mim, como sempre, a imensa contradição que há entre a ausência física - que gera saudade -, e a presença eterna desse homem que me amou primeiro.

* * *

Mas agora eu tenho minha própria casa. Ela é menor, mas igualmente projetada no sonho do meu pai - que, aliás, deve ser o sonho de muita gente. Alguém vai dizer que eu não tenho filhos. É... Mas eu tenho netos. E quem não me conhece bem, vai pensar que isso é impossível. Depende da amplitude do olhar...

Na minha casa, a história ainda se faz. Aqui, filhos do meu marido (cinco, meus enteados) se reúnem conosco - um de cada vez ou todos juntos. Aqui, as crianças, os netos, brincam pelo pequeno jardim, colhendo flores, folhas e morangos para uma sopa imaginária. A gente faz pipoca, brinca de esconde-esconde, lê ou conta histórias e dorme no fim da tarde quando está frio. Aqui, a gente pinta as unhas, costura tiaras e bonecas, assa bolo e frita churros. Faz brigadeiro e doce de leite. Lava a louça a muitas mãos - grandes e pequenas. Aqui, não tem brinquedos: a gente inventa diversão com miniaturas de porcelana, fitas, baldes e colheres de pau. A brincadeira maior é o vovô quem faz...

No futuro, quando entrarem nessa casa, eu espero que ouçam suas vozes e risadas - como me acontece quando entro da casa do meu pai. Desejo que o que hoje se vive aqui, esteja escrito, demarcado, registrado - pelas paredes, através da escada, nas pedras do quintal, no perfume do ar -, como lembrança boa e feliz na memória de todos.

E que a história dessa casa, desenhada com tantos lápis, de tantas cores, fique tatuada nas lembranças ternas dos que partilham da alegria que aqui sempre habita...

Comentários

Zoraya disse…
Débora! Que lindeza, que riqueza, que maravilha detexto. Impressionante como tem gente (como você e a Carla daqui) consegue transformar coisas belas em mais belas ainda. Beijos
gostei, achei lindo, tem a beleza que só as saudades do passado mostra
Debora Bottcher disse…
Obrigada, gente... Toda casa tem história, né? A de vcs não é diferente, vcs só têm que contar... :) Beijos.
Ana González disse…
Lindas histórias que se esbarram, Débora, a sua e a de seus antecedentes familiares. Só que a sua é para o futuro. Muito lindo!!!bjss
silvia tibo disse…
Coisa linda, Débora... :)
Carla Dias disse…
Que texto bonito, Débora...
Acho que sim, uma casa pode ser um álbum de memórias. Beijo!