domingo, 24 de abril de 2011

FILHO INGRATO! >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique tranquilo, porque o título da crônica não é um insulto à sua pessoa, mas à minha.

Sexta-feira da Paixão, ligo para minha mãe para desejar-lhe uma boa Páscoa.

— Demorou para dar retorno, hein? — disse minha mãe, sagitariana das boas, antes de qualquer bom dia.

E eu fiquei calado, sem entender. Ela continuou:

— Domingo, quando liguei, você disse que estava numa cafeteria e que retornava a ligação quando chegasse em casa. Faz cinco dias...

E eu soltei um "desculpe, mãe" encabulado, mas não completamente tomado de surpresa, porque no dia anterior já tinha chorado de remorsos ao tomar consciência de minha ingratidão em relação à minha mãe.

Não, meus amigos, não vou bancar o filho querido e dizer que falo com minha mãe com frequência. Passo dias e dias, às vezes semanas, sem dar um telefonema. Sei que nessa época de Páscoa até os ladrões pregados em cruzes têm esperança de estarem ainda à noite no Paraíso, mas um filho ingrato está desde já — desde o momento de tal reconhecimento — no inferno.

Judas pode ser perdoado, afinal se ele é o responsável pela crucificação, sem ela, e sem ele, não haveria a ressurreição, que no fundo é o que interessa, mas um filho ingrato pecou por omissão, perdeu a deixa, interrompeu a história, não fez avançar a trama: é um mau ator. Até o diabo, o próprio demo, voltará um dia para o céu, tendo cumprido seu papel de antagonista — com um pouco de exagero, é verdade —, mas de maneira intensa, dedicada. Agora, um filho ingrato, esse não tem eternidade que dê jeito, pois não fode nem sai de cima.

Dizer o que, caros leitores? Não há desculpa, não há justificativa, não há razão, não há escusa, não há subterfúgio, não há tergiversação, não há evasiva, não há escapatória, não há atenuante, não há perdão, não há clemência, não há misericórdia, não há remissão, não há indulgência, não há abono, não há paliativo, não há vênia, não há indulto, não há anistia, não há absolvição, não há desconto, não há saída, não há dicionário de sinônimos, não há dicionário analógico, não há thesaurus.

Culpado! Culpado! Culpado! De joelho no milho! Tome um cascudo! Ponha-o no micro-ondas! Encha-lhe a cara de bofetadas! Dê-lhe peia! Duzentas chibatadas! Rache-o de pancadas! Moa-lhe os ossos! Já para o cadafalso! Apedreje-o! Tragam a coroa de espinhos! Corte-lhe a cabeça! Pregue-o à cruz! Nada de golpe de misericórdia! Esquarteje-o! Preparar, apontar, fogo! Que lhe sirva de lição!

E nem posso lamentar-me a meu pai — Por que me abandonaste? —, pois este filho ingrato também já abandonou seu pai.




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8 comentários:

Mãe disse...

Oi, Junior

Sinta-se julgado inocente, livre de qualquer culpa,mesmo porque as incontáveis alegrias que você já me proporcionou apagam qualquer vestígio de culpa. Além do mais, mãe que se preza tem que ter amor semelhante ao amor de Deus. Ainda mais em tempo de Páscoa.
Beijo da mãe

Tânia Batista disse...

Edu,
Tem problema naum. Além de já perdoado pela tua santa mãe, quando fores pai receberás (em dobro) tudinho que fizestes à tua mãezinha. Como ela bem disse: há sempre um espaço de amor para os filhos que geramos, cuidamos e sempre amamos...Não seja tão duro consigo mesmo. Vou te contar ums egredinho (e não conta para os meus filhos, ok?): a gente ama os filhos exatamente como eles são...E por falar nisso, vou ligar agorinha para os meus...
saudade, amigo meu...

fernanda disse...

Eu, em compensação, sou capaz de ligar pra minha mãe três vezes por dia. E, bom, moramos na mesma casa. Mas assim como a sua mãe te perdoa pela omissão, a minha me perdoa pelo excesso. Mãe é mãe...

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, feliz aqui pelo primeiro comentário ser da sua Mãe. Eu não sou mãe e há muitos anos vi a minha mudar de plano físico. Mas confesso que te entendo porque sou ré confessa nessa ingratidão com muitos que estão e que já estiveram ao meu lado...Ainda bem que Mãe é Mãe, né?
Bjs.

Marilza disse...

Bem, depois de toda essa lamentação, açoite, ainda bem que ela o perdoou né?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Mãe. :)

Grato e também saudoso, Madrinha. :)

Fernanda, precisamos providenciar uma transfusão de atenção com a mãe. :)

Marisa, é bom ter alguém sentado comigo no banco dos réus. :)

É, Marilza... uma bálsamo para as feridas. :)

Carla Dias disse...

Mãe é mãe aqui ou em qualquer outro planeta onde costumamos nos esconder. Aposto que mais do que perdoado, você está sendo elogiado por ter compreendido a falta. Mãe gosta de telefonemas, porque adora notícias dos filhos. Nem sempre conseguimos atender essas expectativas, mas o perdão sempre nos espera, braços abertos, como nossas mães.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É o slogan das mães, Carla: Perdão e braços abertos. :)