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CARIOQUICE >> Albir José Inácio da Silva

Marcelo é um carioquinha cheio de carioquice, que não desiste do Rio mesmo sabendo de suas mazelas. Vive dizendo que basta algum tempo de Rio de Janeiro, e nenhuma formalidade, para se adquirir dupla naturalidade: a de origem e a carioca.

Ele esclarece que não é vantagem perder a naturalidade original. Carioquice é um plus ao alcance de todos. Carioca-mineiro, por exemplo, é melhor do que só mineiro, e também melhor do que só carioca. Mesmo quem nasceu carioca, pode ser carioca-carioca, da mesma forma que cristão nasce pagão e precisa de batismo.

Marcelinho tem quinze anos e vive oferecendo sorrisos e cumprimentos em inglês macarrônico e portunhol. Gosta de ajudar quando vê um gringo de mapa na mão e cara de perdido, mas rejeita moedas.

Ele sabe que tem gente que merecia perder a carteirinha de carioca. Estes, além de não acrescentar carioquice a suas vidas, sofrem de xenofobia. São incapazes de entender que ninguém consegue ser carioca sozinho. Nasceram no Rio, mas não percebem que este lugar foi feito por todos. Não sabem que o carioca cria sua cidade ao mesmo tempo em que é criado por ela.

Marcelo diz que o Rio é dele, sim, como é dos outros. Ele se emociona com todos os sotaques, e distribui abraços só para completar o gesto do Cristo Redentor.

Mesmo agora que os bueiros de Copacabana se transformaram em minas, com carros, turistas e cariocas voando pelos ares, Marcelo não se abate. Considera episódicas as explosões. Jura que nossas concessionárias de luz e gás não são inimigas, e que a cidade não está sendo atacada.

O menino tem orgulho das lembranças que a cidade evoca. Lembranças até para aqueles que nunca estiveram aqui, mas andaram pelas ruas do Rio com Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Braga, sem falar dos poetas, compositores e outros apaixonados.

Marcelo tem razão. Claro que precisamos desarmar os bueiros e educar os maus cariocas. Mas venham... o Rio é bom apesar dos pesares.

Comentários

by Rapha C.M. disse…
Um lugar tão lindo, senão fosse a maldade humana...
Salve, Rio!
fernanda disse…
O Rio é bom e os cariocas também. Gente esquisita não escolhe lugar pra aparecer. Podem explodir bueiros, que continuo apaixonada pela Rio!
Ah, Albir! Adorei o Marcelinho! E sonho com vários deles espalhados por cada canto deste nosso país, todos orguhosos de serem brasileirinhos. :)
albir disse…
Tem razão, Rapha, Salve o Rio!

Fernanda, carioca-mineira, o Rio também é apaixonado por você.

Marisa,
eles estão por aí, mesmo não sendo ouvidos.
Albir, essa sua crônica foi profética da minha semana no Rio. Bom demais conhecê-lo pessoalmente e poder ouvir a voz das suas palavras.
albir disse…
Edu,
você merece as chaves desta cidade. Comemorou conosco, chorou conosco, e abraçou seus amigos e admiradores. Eu inclusive. Obrigado, Eduardo Loureiro Jr.

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