quinta-feira, 7 de abril de 2011

ANTIGAMENTE >> Fernanda Pinho



Por que antigamente tudo era muito mais fácil, mais bonito e mais doce? Porque antigamente é uma ilusão. Cada um cria o antigamente que quiser. Na cabeça de cada pessoa, o antigamente é um lugar diferente no tempo. Cada um escolhe o que quer chamar de antigamente e acontece de sempre escolhermos as partes boas, como quem diz para o presente: "Tá vendo? Você devia ser assim. Fácil, bonito e doce. Como antigamente".

O meu antigamente tem gosto de groselha. Coisa, aliás, que eu não suporto hoje em dia. Mas antigamente não existia para mim nada mais saboroso que aquele líquido bonina engarrafado em recipiente com rótulo da Pantera Cor de Rosa. Pois é, no meu antigamente a gente usava falar "bonina" e costumava, inclusive, ser minha cor preferida (sim, bonina é uma cor. Se você não for de Minas, provavelmente não conheceu essa palavra em época nenhuma da sua vida).

Se a cor era bonina e o sabor era groselha, o cheiro era do álcool que vinha impregnado nas folhas mimeografadas que as professoras distribuíam nas salas de aula. As lembranças do colégio são boa parte do meu antigamente, tempo em que existiam extensas listas de materiais escolares pedindo, entre outras coisas, papel hectográfico (para mimeógrafo) e pasta Brasil (ainda se usa pasta Brasil?).

No meu antigamente, era mais fácil comprar. Com um real dava para comprar o lanche no recreio e ainda sobrava troco pra comprar bala Chita e Ice Kiss, e jogar de grila para os amigos. Jogar de grila era luxo de antigamente. Nunca mais vi ninguém jogando coisas de grila. E se não desse para comprar, ainda era possível trocar. Nem sou tão velha assim, mas no meu antigamente existia escambo. Trocavam-se garrafas vazias por pintinhos. Era uma diversão, até os pintinhos virarem galinhas e perderem o encanto.

No meu antigamente, a gente rebobinava fita antes de devolver pra locadora; chamava Milkbar de Lollo; fazia amigo oculto de agendas da Pakalolo; esperava tocar no rádio nossa música preferida pra gravar em fita K7; Malhação se passava numa academia; na MTV passava clipe o dia todo; toda e qualquer pasta de dente era chamada de Kolynos (sendo que no antigamente do meu pai o certo era dizer dentifrício); e Havaianas era chinelo de pobre.

No meu antigamente, sofrer por amor significava não ser correspondida pelo professor de Geografia, que tinha um Fusca vermelho. Ter muito trabalho para fazer significava passar a tarde tentando montar um QVL (Quadro Valor de Lugar, lembram?) com um pedaço de feltro verde e palitos de picolé. Ter problemas financeiros significava não conseguir juntar dinheiro pra comprar todos os pôsteres do Leonardo DiCaprio. Tudo muito mais fácil, mais bonito e mais doce. Bom o bastante para deixar saudades. Mas não o suficiente para ser melhor que hoje que, por ser o antigamente de amanhã, não deixa de ser fácil, bonito e doce.



Partilhar

15 comentários:

Louro Neves disse...

Fernanda, certamente o "antigamente" parece ser muito melhor que o "agora"; eu só ainda não havia me dado conta do porquê. Confesso-te que saio desta leitura um pouquinho mais culto.
Abraços, querida!

Fernanda Arruda disse...

Olá minha xará,
Somos do mesmo antigamente, me recordo de cada item que vc descreveu aí, exceto a cor bonina, pois não sou das Minas Gerais. Aquele cheiro das folhas mimeografadas estão eternizados na minha lembrança, cheiro de coisa boa, cheiro de esperança e evolução. Obrigada por resgatar essas lembranças todas dentro de mim!

Beijo.

Marilza disse...

Fernanda, amei esse resgate de coisas escondidas em algum lugar do passado, de antigamente. Dentre todas, adorava o cheiro do mimeográfo e, coincidentemente, a minha paixão pelo professor de? Isso! Geografia!!!!
Como já diz uma certa musica de antigamente: 'recordar é viver...'

Beijos

Nilson disse...

Adorei Fernanda, a delicadeza de sua lembrança e sua bela crônica. Beijo!

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Eu era eleita pela professora para passar as provas no mimeógrafo e distribui-las aos alunos, sendo que eu também fazia a prova. Mas ela sabia que eu não colava e naquela época provavelmente ela também amarrasse cachorro com linguiça.

albir disse...

É, Fernanda, acho que confundimos nostalgia com velhos bons tempos.

Juliana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jujú disse...

Ahhhhh, então é isso, é?

O Clau constuma dizer que sou a pessoas que mais tem referência da infância que ele conhece...mas é que realmente tive uma linda infância. Mas sempre disse que também tive uma adolescência deliciosa, e um começo de juventude único, realizando meu maior sonho, de ser atriz.

A vida adulta tb é recheada de bons momentos, onde continuei descobrindo novas coisas, dentre elas o amor verdadeiro... o que me faz pensar que vc tá certa!

E é realmente bom lembrar dos momentos doces que vivemos, mas nada como viver o presente e vibrar pelo futuro, que torcemos e lutamos pra ser tão lindo quanto!

Amei! Beijos

by Rapha C.M. disse...

Ai que viagem boa no passado, me fez relembrar tanta coisa...
Lindo seu texto, a gente chega a sentir a ternura....

BjOo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda, todas as suas crônicas parecem de antigamente: fáceis, bonitas e doces. :)

fernanda disse...

Comentários tão gostosos que parecem todos vindos de antigamente. Beijos a todos!!

Geise;) disse...

Fernada Pinho, que massa sua crônica! Viajei no tempo, é verdade, e me emocionei!
Vlew!
Beijo!

Direito UFG disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ruber paolo disse...

Não consigo não ser seu fã. Sua escrita me encanta da mesma intensidade que a da Clarisse Lispector. E olha que pra eu me encantar é muito difícil, principalmente com intensidade. Parabéns pelas crônicas e obrigado por contribuir com textos tão prazerosos de se ler.

fernanda disse...

Ai, gente, como vocês são fofos! cada comentário que me emociona! Muito obrigada!