quarta-feira, 20 de abril de 2011

O AMOR ME DEU UM BEIJO >> Carla Dias >>

Sabe quando temos o que ser dito engasgado, parecendo até que não sabemos direito do que se trata, mas é preciso berrá-lo? Tem quem berre mesmo, encontra um descampado, uma sala com tratamento acústico, um lugar tão barulhento que nem se percebe o som lançado.

Tem quem guarde amor no berro, sabe? Vai engolindo, guardando, escondendo de si, da sensibilidade do outro em reconhecê-lo, jamais entrega o segredo. E como dizem os quiropatas (ou seriam os médicos de ocasião?): vai tudo para os ombros. A tensão, o peso do mundo, o desassossego arrastado vida afora.

E falo do amor na abrangência dos corações em pleno concerto de taquicardia, seja pelo sorriso do amante, pela delicadeza do abraço recebido de uma criança, pela languidez da mulher que passa, pelas cores das praças, pelas histórias acontecidas nas esquinas, pelas casas que servem de guarida às famílias e aos seus sonhos.

A cidade, ela mesma dá de ser calada, e não fossem os que se expressam nessa mudez, fazendo festa na sala dela, da metrópole, sua voz jamais seria ouvida. Porque, feito a menina silente, aguardando pela mãe terminar de enfeitá-la em tranças com laços, a cidade diz muito durante a espera... A minha, a sua, a nossa.

A cidade nasce, morre e renasce de amor o tempo todo. Até nos dias em que nós acordamos crentes de que esse negócio de amor é balela. Quando estamos tão sós que só nos resta desacreditar o que não sentimos ou o que não sentem por nós.

Tenho amor pelas avenidas, mas confesso que meu afeto corre solto quando elas estão vestidas para dia de feriado ou finais de semana, porque há certa tranquilidade nelas que não se vê em dias úteis. Meu amor, desavergonhado que é, enrosca-se nos grafites, na alegria do grupo de amigos, no desejo do outro em realizar projetos. E ele até se dá bem com o estar só, embrenhando-se em noites frias e chuvosas, com direito a chocolate quente e filme na tevê.

Amor não é uma plantinha que necessita ser aguada diariamente. É uma floresta tropical, diversa, imprevisível, pulsante. É preciso encará-la, diariamente, com disposição para compreender o que ela tem a dizer ou a mostrar, qual é o cenário no cardápio do dia. Não é uma caixinha de surpresas... É um universo todo delas.

Desafogo o berro, meu caro, e escancaro nome, endereço e número de identidade. A cidade se assusta com essa minha canção dodecafônica. Alguns chamarão minha catarse de declaração de amor, dando a ela uma leveza digna de cartão repleto de corações vermelhinhos, sorridentes. Mas haverá aquele que compreenderá: às vezes, amar pede mais de nós do que acreditamos poder oferecer. E nos transforma, molda-nos, e numa constância que tem a duração da vida. Amar é sério, mesmo quando nos faz sorrir.


Música que amo aos berros neste agora.
Olivia by Stand


Imagens
Aninha Apolinário clicou a arte nos muros da cidade.
Confira mais: contatohumano.blogspot.com


carladias.com




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8 comentários:

albir disse...

Carla,
impossível não amar quando você apresenta o amor.
Beijo.

Aninha Apolinário disse...

Carla ficou lindo !! Amei o post ;)
Muito obrigada pela parceria e pela deliciosa pitada musical.
...MAIS AMOR POR FAVOR !!!
bjokas,
Aninha

Marisa Nascimento disse...

E quando eu acho que já tinha ouvido tudo sobre amor, vem você e reconta tudo de uma forma tão Carla de ser e eu fiquei aqui com vontade de ler mais. :)
Bjs

Cacá - José Cláudio disse...

Carla, esta sua crônica está digna de ser tranformada em declaração universal do amor. Que maravilha! Abraços.Paz e bem.

Anônimo disse...

Lindo!!!!!!!!! demais!bjs
Anagon

Carla Dias disse...

Albir... Que amor de comentário : )
Beijo!

Aninha... Obrigada pelas imagens, elas foram inspiradoras. E sim... Mais amor, por favor. Beijos!

Marisa... Agradeço, profundamente, por você ter apreciado aminha versão do amor. A versão de hoje, porque se trata de um sentimento com mil e tantas facetas. Beijos!

Cacá... Quem me dera ter a possibilidade de transformar uma crônica em declaração universal. Mas quer saber? Acho que ela pode ser sim, aqui, nesse lugar no qual as palavras acontecem. Abraços e obrigada por parar por aqui.

Anagon... Obrigada : )

Thayná disse...

Me fez suspirar e re-amar quando li essa crônica! Que coisa bela!

Carla Dias disse...

Tayná... Obrigada pela gentileza :)