domingo, 10 de abril de 2011

NADA SEI >> Eduardo Loureiro Jr.

— O que foi que você aprendeu na escola hoje, Luís?

Foi o que perguntei a meu sobrinho de quatro anos. E ele me respondeu:

— Não sei.

Pensei lá comigo que o ensino, nos dias de hoje, deve estar bem avançado, pois crianças de pré-escola já aprendem a sábia máxima de Sócrates: "Só sei que nada sei".

Na mesma sala, num apartamento no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, a televisão seria ligada à noite por meu cunhado e faria com que fôssemos invadidos por uma tragédia: Wellington, um jovem de 23 anos, retorna a sua ex-escola, em Realengo, a 30 km de onde estou, e assassina 12 adolescentes entre 12 e 15 anos.

Se alguém me perguntasse, enquanto eu arrumava o sofá-cama para dormir, O que você aprendeu na escola da vida hoje, Eduardo?, eu teria que responder como Sócrates e Luís: — Não sei.

Um acontecimento assim deixa o cronista num insolúvel dilema. De um lado, o que dizer três dias após o acontecido, quando tudo já está exposto em palavras, fotos e vídeos nos jornais, nas revistas e na internet? Por outro lado, como calar diante da ocorrência, sem que o silêncio seja de indiferença ou cumplicidade?

Primeiro pensei em fazer uma analogia com a história do sapo e da água quente (se a temperatura da água fria for elevada lentamente, o sapo não sente que está sendo cozido), escrevendo cinicamente sobre como a progressiva entrada de americanismos no Brasil (rock'n'roll, surf, fast food, halloween...) prenunciava a chegada do school shooting. Mas achei que não seria muito sensível da minha parte abordar o assunto dessa maneira.

Depois lembrei — como é comum quando me deparo com atos humanos desse tipo — de uma crônica de Machado de Assis, de 16 de junho de 1895, em que ele comenta o caso de um menino de dois anos que foi abandonado pelos pais numa estrebaria, vindo a morrer três dias depois pela fome e pelas bicadas das galinhas. Na crônica, Machado faz uma ironia a partir do pensamento de Schopenhauer, afirmando que o culpado é, na verdade, o menino, que, enquanto espírito não encarnado, propiciou o encontro dos pais para que pudesse nascer neste mundo. Incapaz de realizar feito semelhante ao de Machado, por absoluta falta de talento, desisti da ideia.

Volvi-me para algo mais simples, mais humilde, mais modesto: comparar a tragédia aos quatro dias que passei no Rio. Dias cheios de contratempos, mas com alguns bons momentos (conhecer o cronista Albir, por exemplo). Mas me pareceu muito deselegante falar de mim mesmo, e de meus pequenos aborrecimentos diários (perda de celular, voos com conexão demorada, ausência de fontes para minhas pesquisas...), quando pessoas haviam perdido vidas e familiares choravam parentes.

Ocorreu-me, então, entrar na pele das pessoas envolvidas: e se eu fosse uma das vítimas, um dos pais, o policial que virou herói? E se eu fosse o próprio assassino? A descrição do matador, afinal, não é tão diferente da ideia que as pessoas fazem de mim: um sujeito aparentemente pacífico, quieto e cabisbaixo, antissocial, que preferia fazer trabalhos escolares individualmente e não em grupo, e que passa muito tempo em frente ao computador. Mas não é possível ser aquilo que não se é. Os derradeiros anos me mostraram que só podemos entender certos comportamentos humanos se, efetivamente, já praticamos determinados atos, e eu nunca tive uma arma apontada para a minha cabeça nem em minhas mãos, tampouco perdi algum filho numa tragédia.

Por fim, conjecturei propor a mim mesmo um desafio que lanço aos meus alunos em minhas aulas: escrever um texto a partir de uma lista de palavras resultante da decomposição de outro texto. Talvez eu pudesse, recombinando as palavras da carta deixada por Wellington, escrever uma outra história em que luvas, casamento, lençol branco, vida eterna e Deus se arranjassem de maneira mais aprazível. Mas fiquei com medo de mexer na matéria-prima que deu origem a esse discurso de morte.

Então, cheio de ideias mas com o coração ainda vazio, me sentindo como uma criança de quatro anos ou feito um sábio já há muito falecido, o que quero mesmo dizer, aliás, repetir é:

— Nada sei.




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8 comentários:

o mar e a brisa do prazer de aprender disse...

Primeiro passo para chegar a uma solução e dispensar toda inteligência acadêmica e iniciar o processo de escrita. Parabéns vc chegou na essência . Penso o que falta é Amor e o Respeito pelo outro. Abraços

Marisa Nascimento disse...

Se você não sabe, Eduardo, como vou saber...
Só sei que foi o texto mais límpido que li diante de toda essa sensação que fica de sujeira e injustiça dentro de cada um.
Como é bom te ler!
Bjs.

Fernanda Arruda disse...

É Edu, difícil entender algo que está tão distante de nossas possibilidades, mas infelizmente próximo na realidade. Tristeza, crueldade, tragédia? Que nome dar a tudo aquilo? Não sei :(

albir disse...

Não é só você, Edu. Ninguém sabe nada. Não sabe o que dizer, não sabe o que ouvir. Um abraço talvez seja a única coisa eficaz nesse momento. Como o que você me deu horas antes da tragédia.

by Rapha C.M. disse...

Posso te dizer que com uma arma na cabeça a gente só pensa em sobreviver... Muito triste tudo isso... Belo texto!
Um abç!

Debora Bottcher disse...

É, Eduardo, não dá pra saber mesmo - nem dizer muito...
Beijo pra vc.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Caros e caras, grato por compartilharem de minha ignorância. :)

fernanda disse...

Nem nunca saberemos...é isso que me angustia!