sexta-feira, 15 de abril de 2011

O MOTORISTA FRANZ KAFKA
>> Leonardo Marona

Hoje o motorista do meu ônibus era Franz Kafka. Não era tão magrinho quanto o nobre inseto-literato. Era um Kafka perfeito, um Kafka com aquelas orelhas de abano e aquela hesitação peculiar, os olhos gigantescos e vidrados, mas que não poriam medo a um inseto. Eram, afinal, os próprios olhos gigantescos e vidrados de um inseto entre a parede e a sola da bota. Mas era robusto, com os cabelos de escovinha arrastados violentamente para trás da cabeça triangular, as fundas covas por trás dos olhos sobressaltados, uma exasperação a cada passageiro que entreva no veículo: "Desculpe... perdão... eu quero dizer... acabei que me...", apenas para dar o troco da passagem.

E pensei: o pobre Franz, se fosse motorista de ônibus e não escritor, seria um gênio maior, como era aquele motorista Franz. Porque nada estava tão fora do lugar para aquela personalidade quanto a força bruta de uma brusca virada em curva, com todo aquele peso controlado por seus punhos trêmulos, e ainda assim o rosto impassível, a fronte sudorenta — e os pensamentos em quantas igrejas góticas, quantas cartas mal escritas, quantas Pontes Carlos onde velhos senhores rasgam nossos corações com realejos...

No entanto, ali estava um homem simples, assustado, mas do susto que todos os que carregam nas costas um mundo que não é o seu se assustam. Franz teve mais sorte: renegou o mundo que não era o seu e aceitou o peso nas costas de seu próprio mundo. Mas aí não aguentou. A volta do pêndulo esmagou sua cabeça de encontro aos seus próprios muros erguidos. O mundo que era seu ele não podia suportar tampouco. E isso, meus amigos, chama-se deslocamento de si. Porque se suportamos o que não nos importa e não nos afeta, mesmo que seja pesadíssimo, suportaremos, enfim, sem reclamar, porque aquilo não estará, de fato, em nós. Mas conforme aceitamos um mundo ao qual nos sentíamos fadados, mesmo que nunca preparados, e reparamos que este mundo, que é nosso mundo, o mundo, digamos, de nossa alma, este mundo nos pesa mais do que qualquer peso do que não seria o nosso, e o que é nosso, contrariando a nós mesmos, se torna insuportável para nós. Então construímos portas intransponíveis de castelos, igrejas góticas nas imensidões do sentimento, tribunais invisíveis como um jogo de fantoches, e então viramos Franz Kafka, o magrinho, o anti-herói. Mas imaginem se Franz tivesse suportado seu próprio peso, quantos milhões de pessoas não teria liderado em direção à força de sua autoconfiança, quantos homens magrinhos e melancólicos não deixariam de meter o cano da arma na boca ou atrás da orelha?

Mas a certas personalidades, por algum tipo de obra sobrenatural (sempre tendo em vista que o sobrenatural está aqui, que em nós ele está), não é simplesmente permitido acumular forças. A equação é indigna, tão parecida com tudo que nos rege: aos com muita intensidade e pouco estômago, a intensidade corrói o fígado, ao passo que o peso do marasmo esmaga a cabeça. Já aos com pouca intensidade e muito estômago, feijão com arroz e algumas cabeças de porco não farão mal, e eles aguentarão o peso do mundo.





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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Ah, Léo! Você trouxe um texto falando do meu escritou preferido, depois de você e de todos aqui do Crônica, claro!...:) Mas é muito lindo ver você escrevendo sobre Kafka, logo você que eu acho que estudou na mesma escola que eles. :)
Beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Quase divertido esse Kafka dos trópicos. :)

Universo dos Leitores disse...

Adorei o blog e as crônicas! Já estou seguindo. Vou postar algumas crônicas de vocês no meu blog e indicar a fonte para divulgar.

Abraços!