sexta-feira, 1 de abril de 2011

O SILÊNCIO TANGE O SINO:
UM LIVRO QUE SE ANTEPÕE AOS ALARDES
>> Leonardo Marona

(Ateliê Editorial, 2010, 80 p.)

Toda a infelicidade dos homens
nasce na esperança.

(Camus)


Depois do grito, vem o silêncio. Mariana Botelho é a primeira pessoa que entendeu a expressão de forma poética. Pelo menos, é ela a primeira pessoa que fez isso para mim. Porque outros, talvez, me causassem a mesma sensação: Paul Celan, Tsvetaieva, Georg Trakl. Mas destes podemos dizer: muito bem, estão no centro do mundo, passaram por guerras concretas, anunciadas pelo rádio, por bombardeios, e o silêncio deles é, na verdade, o silêncio de quem morde um pano para não gritar. Mariana gritou em volume altíssimo, depois sentou para escrever o que restou deste grito. Porque para fazer com que o silêncio diga algo – e o silêncio só poderá dizer algo que seja fundo como o fundo do oceano – é preciso antes ter havido uma rachadura, como diz Mariana, um corpo feito de aberturas / onde / silêncios entram / saem / como águas de longe, uma rachadura profunda onde chegará o silêncio, onde o silêncio por fim ecoará através da experiência prévia do barulho, e dentro de nós este será um silêncio trêmulo, não um silêncio que diga "veja quanta paz!", mas um silêncio que envergonha a paz e geme feito bateria descarregada depois da ultracarga insuportável: nosso silêncio / e enfim / o colhemos // maduro // mas não domesticado. É um silêncio mais raro que vem dos sopros leves de Mariana: “pássaro de pedra, num voo de morte”. Ela conhece o engano do mundo, o falso-apaziguado em cada um de nós. O mundo todo mente / quando faz silêncio // essa paz não existe. Ler Mariana é se deparar com nossas próprias vergonhas: vergonha de não ser verdadeiramente, de não saber pertencer à paisagem, de não seguir o ritmo das águas. Mariana, quando nasceu, causou no chão duro do Jequitinhonha uma rachadura, e nessa rachadura depositou sua lágrima original. E a poesia nada mais é do que uma lágrima original dentro de uma rachadura.


O mais estranho é imaginar que estou aqui, tentando escrever sobre o impacto de um livro de poemas, e que, ainda por cima, sei que o poeta que escreveu esses poemas também está fazendo alguma coisa, neste exato momento. Será um novo poema? Pouco provável. Mesmo sem conhecer Mariana pessoalmente, tendo falado com ela algumas vezes através da tecnologia moderna, imagino que ela agora esteja fazendo algo minucioso, algo que se exploda num espaço pequeno, algo que, achatado pelo gigantismo de pertencer, nos abala em frases proféticas. Por exemplo, ela pode estar enxugando a louça, tirando as roupas brancas do varal. E que sorte teria essa louça! Como seriam bem acolhidas as roupas do varal! Para alguém como eu, que vivo no caos, fico calmo no caos, me atiço no caos, ver um pouco do que poderíamos chamar de “relação honesta com a natureza do espaço” é quase como um homem, cuja perna se despedaçou na explosão de uma bomba, ver chegar a ambulância. E as visões mais turvas da nossa alma, aquilo que a preenche, em suma, ganha a força de uma profecia. E a profecia em Mariana Botelho é algo que se dá pela força da constância plácida, da indiferença em relação às carrancas afetadas do desespero terreno. E ela sabe que quando alguma coisa produz silêncio / ela está / pronta.


Agora, nada é calmo ali, eis a contradição saudável: o silêncio agitador. Imaginem um tsunami, desses que matam pessoas, varrem civilizações. Olhem bem para ele, a maneira como passa quase em câmera lenta, um bloco d’água quase estático, numa velocidade tão segura que não precisa de muito torque. É algo que passa, independentemente de nós, mas é tão elegante, ritualístico, sem exageros, que quase nos sorri, quase nos explica alguma coisa que, no fundo, não podemos entender, porque esperneamos, porque gritamos e somos loucos, porque para sentir amor precisamos atiçá-lo, e por milhões de outros torpes motivos que nos impede de, bem no fundo, por mais que tudo esteja perdido e seja tudo uma injustiça, poder odiar o tsunami, porque ele é um aviso antigo, a comunicação mitológica de uma linha interrompida.

Desculpe, Mariana, minha tendência aos exageros mais toscos. Mas quando leio os teus textos me parece que existe uma harmonia natural entre as palavras, algo que, sem metáforas, arrancaríamos como blocos das paredes milenares, das grutas submersas, e faríamos apenas emergir a palavra eterna. Você mesma – eu mesmo, de certo modo, agora – deve imaginar como é possível que exageremos tanto. Mas se formos mais além e pensarmos mais a fundo, veremos que o exagero da alma, causado muitas vezes por contenções latentes, é a maior dádiva que a arte pode criar. E nada nos deixa mais conscientes de estarmos vivos do que a dor.





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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Lindo título do livro da poeta e perfeita homenagem de um raro e requintado escritor...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, ler alguém escrevendo apaixonadamente sobre um livro me dá o mesmo prazer de ver um casal de apaixonados se beijando no meio da rua.

Anônimo disse...

nao gostei deste textro orrivel que nojo