segunda-feira, 18 de abril de 2011

A VOVOZINHA II >> Albir José Inácio da Silva

Tidinho era na verdade Aristides e nem mesmo ele sabia o porquê do diminutivo. Tinha mais de dois metros, cento e muitos quilos e uma manopla que conseguia segurar dois presos de cada vez. Vinte anos de polícia, salário ruim, muito trabalho, mas ele até que gostava. Tentaram lhe dar outras funções, mas ele ficava bem era na carceragem. Gostava dos rapazes. Dava conselhos para os que ouviam e corretivos para os que precisavam. Até os presos concordavam que ele distribuía justiça lá do seu jeito.

Isso não evitava que de vez em quando inventassem umas modas para tirá-lo do xadrez. Foi o que aconteceu hoje: muita gente de folga, o delegado mandou que ele acompanhasse a equipe a um bingo clandestino. O cassino existia de fato, mas não havia viva alma no lugar, apesar das máquinas ligadas e até cigarros acesos. A operação deve ter vazado. Tidinho fez cara de contrariado, como os demais, mas ficou aliviado. Era só recolher as máquinas pro depósito e voltar para a tranquilidade de sua carceragem. Mas ouviu-se um tiro.

De arma em punho todos se arrastaram até o fundo do salão, de onde veio o barulho. Atrás de uma máquina estava a vovozinha, com roupa de festa e muito pó de arroz, tentando pegar a bengala que caiu no assoalho e provocou aquele barulho.

- Vovó, o que a senhora está fazendo aqui? – perguntou um detetive.

- Estou ganhando, você não está vendo?

- Vovó, este jogo é proibido, o lugar vai ser fechado e a senhora presa. Entendeu?

- Ora, vocês não têm vergonha, não? Vão prender os bandidos e deixem em paz as velhinhas no seu momento de lazer!

Tidinho não estava gostando nada. Menos ainda quando falaram, olhando pra ele, que era flagrante, tinha que recolher. Ele argumentou: por que levar uma velhinha pra delegacia? Os donos já fugiram, era confiscar o dinheiro, as máquinas e ir embora. Mas o chefe da operação estava inflexível: ela tinha de ir pra delegacia, talvez identificar os responsáveis, explicar a quanto tempo a casa funciona, essas coisas. Tidinho, que não era de muitas palavras, caprichou. Disse que se ela não os entendia ali não ia ser diferente na delegacia, que não tinham onde colocá-la, que ela podia ter um piripaque e ainda seriam responsabilizados. Deu resultado.

- Vovó, a gente vai deixar a senhora ir embora. Mas vê se não entra mais nesses lugares que a senhora acaba enrascada, entendeu?

- Não! Eu não saio daqui a essa hora não. Não posso andar de noite por causa das vistas. Eu só vou pra casa de manhã. E eu ainda quero saber quem é que vai me pagar. Não estão vendo que eu ganhei?!

- Tidinho, recolhe! – impacientou-se o inspetor.

Em poucos minutos a delegacia virou um caos, e a vida de Aristides também. Já tinha saído e voltado da rua quatro vezes: comprou água, que trocou porque ela só bebia com gás; comprou biscoito, que não servia por causa das marcas ou dos sabores. Por último comprou café, mas ela não queria copo plástico. Foi sorte o delegado ter uma xícara pintada por sua falecida mãe. Então ela sossegou por segundos.

Mas recomeçou logo, terminado o café, em voz alta: se não tinham crimes a combater, tanto bandido nas ruas, cadê o delegado que não chega, ia ligar pra corregedoria. Não satisfeita, começou a bater com a bengala na mesa. Até que acertou o lado do pires, que alavancou a xícara e jogou a dois metros de altura. O delegado entrou quando a sua preciosidade se espatifava no chão. Ele ficou um tempo olhando os cacos, mal respirando, até que conseguiu falar:

- Tidinho, recolhe!

Pela segunda vez hoje, Tidinho teve de argumentar, o que lhe era penoso. Não gostava de gente porque gente falava demais. Gostava ainda menos de crianças porque elas falam ainda mais. Uma vez quiseram transferi-lo para a Delegacia de Proteção à Criança e ele implorou para não ir. Grande e desajeitado, não sabia lidar com crianças. Ainda mais aquelas, rebeldes, malcriadas, em quem ele não poderia nem encostar a mão. A única coisa frágil que amava era sua mãezinha, de setenta anos, que ele tratava como um passarinho. E foi pensando nela que pediu:

- Doutor, a gente não pode botar essa velhinha naquela umidade, vai que ela morre, como é que a gente fica? Vai dar jornal, corregedoria, televisão, o diabo a quatro. Deixa eu levar ela pra casa. Ela não sabe nada, não entende nada, não vai esclarecer nada mesmo. Vamos esquecer tudo isso, inclusive, com todo respeito, a xícara.

De volta da missão, Aristides estava de novo em frente ao delegado, chorando por uma licença. O doutor sabia que ele nem gostava de férias, mas precisava descansar. Todo mundo viu a paciência com que ele cuidou daquela infratora. Ainda bem que o doutor é homem compreensivo, ou podia pensar que ele estava prevaricando. Depois, por causa da escuridão, levou-a pelo braço até em casa. E quando esperava um boa-noite, um Deus-te-abençoe-meu-filho, a idosa perguntou, antes de bater a porta:

- Você tem outras atribuições na delegacia ou o seu trabalho é só maltratar velhinhas?

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mais um clássico, Albir. :)

Marisa Nascimento disse...

Albir, você se supera sempre!
Adorei! :)

albir disse...

Edu,
sempre incentivando. Assim fica mais fácil escrever.

Marisa,
sempre generosa. Assim a gente fica mal acostumado.