sábado, 14 de junho de 2008

POIS NÃO, SENHORA! [Sandra Paes]


Não faz muito tempo que me dei conta que tinha virado senhora! Aos olhos dos outros, é claro... De repente, voce percebe que as pessoas passam a lhe dizer, a toda hora, a sra. aqui, a sra deseja, pois não, senhora!.

Ganhei um status novo. E diante disso, confesso, fiquei sem saber como me comportar. Um sentimento muito parecido como o de quando fui “comunicada” que tinha virado “mocinha”.

Minha consciência, minha percepção, nunca foram muito ligadas ao espelho ou na visão do outro... Costumava - e ainda é assim - ser mais ligada nos meus próprios sentimentos ou emoções, ou o que se passa dentro de mim como sinal prioritário de tudo. Coisas como a intuição, o conforto ou não dos músculos, da respiração, da batida cardíaca, da temperatura da pele e o desassossego das vísceras.

Daí que essa coisa como: - Nossa, como você está bonita! Ou, o que você tem usado nos cabelos, ou você perdeu peso!, ficou sempre por conta do olhar do outro mesmo. No máximo, me ligo na reação vibracional que posso sentir, mesmo quando de costas, quando um pensamento, olhar ou comentário é feito a meu respeito. Sempre senti quando minha energia se deslocava em função de uma ou mais pessoas, mesmo à longa distância. Agora, esse conceito de “mocinha, mulher, senhora” começou a bater mais forte em mim.

Dei pra notar que não me sinto atraída para certos programas sociais. Entre outras coisas, conversas sobre “dates” ou encontros casuais, ou não, as aspirações adolescentes e tal, nunca foram muito meu forte, e agora então, nem pensar... E quando ocorre um galanteio, me pego por dentro no mesmo estado “esquisito” de “virei mocinha”.

Engraçado tudo isso por que, pra mim, de fato, não tem uma fronteira marcada por princípios físicos ou hormonais. Viro criança em casa ou com outras crianças, me sinto envelhecida quando tenho dores não justificáveis aparentemente, sinto preguiça do mesmo jeito que sentia quando adolescente e tinha tanta coisa pela frente pra fazer, mas confesso, que o poder de “get up and go” que me arrastava pra aventuras sem que nem pra que, se deslocou.

Os espaços de iniciações tribais sempre foram muito estranhos pra mim. Me lembro do espanto diante da contemplação que as “mulheres” da família vinham tecendo em torno da festa de debutante.

Hoje, quando alguém fala ”meu filho acabou de passar pelo barmitizva" “, entendo um pouco melhor essa coisa toda, e vejo com olhos de cumplicidade o garoto que ainda é um garoto mas ”foi inciado” ao ato de ser homem.

E de repente, não mais que de repente, eu ouço na cadeira do cabeleireiro: - Engraçado seu cabelo... Atrás está todo preto, agora a raiz na frente tá todo branco... Que cor você quer pôr pra cobrir isso? E eu que não costumo olhar o espelho, muito menos pra ver a cabeça por detrás, fiquei curiosa com essa informação a mais: o tal do - Pois não, senhora! começou a ter lugar.

Respirei fundo e pedi um espelho pra ver a cabeça. - Gostei!, respondi!Quero cortar curtinho e deixar os brancos ganharem seu lugar... Quero ser a senhora que se manifesta!

A cabeleireira retruca no ato: - Mas você é muito jovem pra ficar com todos esses brancos!

E de novo lá vem a questão: Ser ou não ser senhora?! E aí? Fica o quê? Mudar o guarda-roupa? O jeito de sentar, de falar, de sorrir? Como é esse ritual nessa nova era?

Estou ensaiando - depois de deixar os brancos à mostra, e toda a mecha prateada que cobre o lado esquerdo da cabeça, lugar mais usado ultimamente, visto que o cérebro parece meio carregado nessa área. Será que é isso mesmo?

Who cares? Comecei a prestar atenção nas senhoras e senhores. Mulheres, em geral, pintam os cabelos, fazem plástica, dobram a maquiagem, reformam o guarda-roupa e tal; já os homens, não parecem dar muita trela, e começo a ver atores grisalhos, o bonito ”salt and pepper” de muitos, e o estilo “não estou nem aí pra essa coisa de entrar em outra idade e tal..

Me sinto uma nova debutante, por incrível que pareça. Comentei com uma amiga que não me vê há mais de ano que resolvi assumir os brancos e que provavelmente não me reconheceria por isso. Ficou muda do outro lado e depois da pausa acrescentou: - Hora dessas você muda de ideia!

E cá estou eu com meus botões: - será? Preciso achar um lugar mais confortável pra minha senhora, ou preciso encontrá-la e reconhecê-la, e mapear essa idade? Céus! Não sei como fazer isso... Nem sei o que é isso, mas percebo os olhares de censura, literalmente, aos meus prateados cabelos. Parece que todos me querem com ares de anos 40 ou pelo menos que eu não fique com ares de terceira idade.

Quanta bobagem! Mas está ai....

Imagens: Face of Redhead, Adrianna Williams; Blue-Eyed Woman, Véronique Beranger; Grayhaired Woman, Rick Gomez

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

Pois é, Sandra, Eu também já me pego assim nesse meio termo - na idade 'adiante' e na 'antiga'. Para alguns, já sou uma senhora; para outros, ainda uma menina.
Não sei também como me movimentar nesse 'novo' cenário porque, de fato, não me sinto nem uma senhora, nem uma menina - só eu mesma, com tudo que isso implica, meio sem tempo. Envelhecer talvez seja apenas essa coisa estranha de deslocamento mesmo. :)
Beijo enorme.

Ana disse...

Sandra, ADOREI!
Eu sou super a favor dos cabelos brancos, ams é fácil dizer quando não os tem né?
Pelo que me lembro do nosso único encontro, a mim, você era uma moça muito bonita.
E deve estar uma senhora - ou uma criança - super estilosa de cabelos prateados!
bjs!
Ana