sexta-feira, 20 de junho de 2008

Enquanto Juca lia Fausto Wolff no jornal >> Leonardo Marona

Juca e Dato durante certa manhã de frio, enroscados debaixo de cobertas já não tão limpas, no chão da sala com cozinha embutida.

As mãos vermelhas e quebradiças refugiadas em xícaras com café forte e amargo. A chuva estala as janelas e é tão difícil se ver livre da poeira quanto do passado. Os jornais estão espalhados pela sala, com marcas antigas de copos de vinho e pontas de cigarro – algum amor perdido em noites sem sono.

Dato veste apenas meias de lã acinzentadas e uma cueca samba-canção esgarçada. Está fora de forma, de modo que ostenta mamas salientes, mas ainda tem belas coxas e se orgulha delas.

Juca corta as unhas do pé numa bacia e fuma um cigarro ao mesmo tempo. Com os cabelos presos em coque por uma caneta de cinqüenta centavos, bate as cinzas no tapete “do tipo polaco” e funga com o nariz entupido por causa da alergia ao pêlo do gato. O jornal dobrado no chão duro de tábua corrida não representa nenhum aconchego.

- Outro dia me chamaram de reacionária porque eu disse que era bom a gente abrir os olhos com a Amazônia - diz Juca olhando para o jornal, cortando as unhas e tragando sem parar. – Antes que ela vire um parque aquático americano.

Dato apenas olha e não diz nada. Odeia cigarros e quem os fuma, com exceção de Juca. Em alguns momentos. Não neste. Depois estica a coluna com os braços para cima. Sente-se feliz porque ainda consegue ver as linhas das costelas através da pele. Relaxa novamente. Então olha para suas mamas enrugadas: o tempo não dá trégua a qualquer tipo de boa intenção.

No rádio, a mulher tem uma voz nasalada e levemente devassa. Um pouco fora de sintonia, diz:

A seguir, concerto número 1 para piano de Brahms, pela Orquestra Filarmônica de Israel, com regência de Zubin Mehta e Radu Lupu ao piano.

- Radu, quem? – pergunta Juca esticando o jornal.

- Um solista – diz Dato calçando um pé do sapato.

- Sim, mas um pianista havaiano?

- Como você sabe?

- Pelo nome... Lupu... Deve ser nativo.

- É romeno.

- Eu achava que Lupu era doença crônica...

- Lupus.

- Pois é...

- Ataca principalmente mulheres brancas.

- O que causa?

- Inflamação no corpo, nas juntas, no couro cabeludo... Uma doença africana.

- Mas Lupus não é também a marca de meia? – diz Juca lixando o calcanhar.

- Lupo – diz Dato.

- Pois é...

Então Dato levanta e mistura mais conhaque com café. Cueca branca de braguilha aberta. Cabelo amassado na cabeça desproporcional. O rosto vincado por dias e dias de dobras de travesseiro e chuva fina. Barba demais, o pescoço tomado. Meias cinzentas, de algodão.

- Por acaso você pensa que é Samuel Spade? – diz Juca recolhendo unhas do chão.

- Só se você fosse uma daquelas putinhas com piteira na boca – diz Dato calçando o outro sapato.

- E digamos que eu seja, ou digamos que eu possa vir a ser uma putinha...

- Então neste caso, minha querida, eu sou, sim, o Samuel Spade.

Beijos no sofá. A um incomoda o mau hálito do outro. Não reclamam, mas, em compensação, também não fecham os olhos. A chuva aplaude do lado de fora. As folhas nas árvores se agarram, riem e choram. A gravação de Brahms é tão antiga que faz o mundo inteiro chiar na arranhadura da vitrola feita de madeira e ouro forjado. É quarta-feira, Dia da Independência, mas parece domingo e todos estão presos de alguma forma, a maioria sem saber.

Dato ama Juca que ama Dato que ouve há anos que Juca o ama e diz há anos que ama Juca e pensa há anos que se a ama tanto não deveria precisar dizer tanto que ama Juca. Mas às vezes são ditas tantas coisas que não sobra tempo para o amor. E mesmo no céu não há fogos de artifício em lugar nenhum.


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Um comentário:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, maravilha o tom de realismo dado ao texto! É possível visualizar perfeitamente o cenário pela riqueza descritiva.