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MEU CORAÇÃO >> Carla Dias >>

Meu coração goza de paixões subalternas. Ele bate o cansaço, o behind beat exausto; trafega há muitos quilômetros de querenças indigestas, curvando-se ao comando dos fados.

E se sente acuado, esse meu coração, ele que sempre foi da catarse nem tão de repente: arpões. Caiu derruído sob a guarda dos menestréis da tristeza; lambendo a língua do amargor como fosse o amante. A saudade vaiando sua coragem retrógrada. Indisposta.

Deu de digerir solstícios num jeito infante de praticar sustos; o assobio vem sei lá de onde, o berro intrigado, o desfalcar quimeras ao cantá-las nos panos das mágoas.

Um cancioneiro revirado por lamúrias, esse tal, que arranha lembranças em busca de abrigo.

Meu coração anda aliciando labirintos, submergindo a necessidade frenética de apreciar singelezas; colecionando negativas e grunhindo malfeitos.

Em tempo algum, esse meu coração foi tão dolente. E soa, no vazio que o consome, essa canção distraída sobre sonhos desgastados; desejos esquecidos. Uma ária sobre apegos.

Meu coração deu de ficar calado, num canto. Ele anda ensimesmado, batendo ao ritmo da conveniência alheia; trança as pernas quando tenta fugir da rotina das imposições e se atrapalha todo. Míngua a própria capacidade de construir, como fosse bandido numa história sem eira nem beira.

Por favor, desculpem meu coração descarado, mas ele é de cortejar a indecente sofreguidão quando a dita aparece. É que não sabe bater em falso... Prefere os falsetes; e desenganado das emoções, jaz numa canção sertaneja; o lamento a parodiar faltas.

Meu coração não está no lugar certo, e reverbera a falta do mapa para orientar a jornada de reconhecimento do lar. Anda é arrastando solidão feito chinelos – barulho estrangeiro na madrugada - sem saber se sucumbe ou se reinventa.

Às vezes, ele pára só para contemplar a inexistência, mas apaixonado que é pela esperança, agarra-se ao fôlego e à urgência de re-experimentar a vida...

Como nos dias em que, atrevido, batia ao ritmo de um tango desvairado.

Meu coração anda com a saudade a tiracolo; o futuro a lhe botar um medo andarilho.


Imagem: Paul Paladin

www.carladias.com

Comentários

alua.estrelas disse…
Nossa, que texto maravilhoso... Adorei as composições e comparações... E olha que meu coração andava meio assim... Dolente, minguando a criatividade...
Muito bom mesmo!
Parabéns!!!
Bjos.
albir disse…
Que belo poema, Carla!
Meu coração não sabe se ficou alegre, se ficou triste,
sabe que bateu no mesmo compasso.
Beijo.
Carla Dias disse…
alua.estrelas: Apareça sempre... no Crônica do Dia temos o hábito de aquecer corações : )

Albir: Bom tê-lo no mesmo ritmo.

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