sábado, 21 de junho de 2008

AGENDAS ROTINEIRAS [Sandra Paes]


Parece redundância. Talvez seja. Se é pra estar na lista do que fazer, parece óbvio que é pra seguir uma certa rotina. Mas há certas coisas e atos que se tornam incorporados, e, não sei que parte do corpo ou do cérebro dita suas normas, mas todo mundo parece seguir sem pestanejar.

O mais chato e irritante é ter que ouvir o de sempre: “Eu estou apenas fazendo meu trabalho.” Aí é que mora o perigo. Não sei quando foi que inventaram a escravidão do trabalho como forma de conquistar a liberdade. E com isso se justificam os cortadores de árvores, os matadouros de aves e vacas e porcos, os cortadores de gramas e podadores de árvores naturais, os construtores compulsivos com seus cimentos e tijolos empilhados, os policiais de ronda que espancam as pessoas em nome de manter uma possível ordem, as faxineiras domésticas que arrastam os moveis e passam o aspirador de pó com o rádio ligado às tantas - mesmo que tenha alguém em casa de cama, não suportando barulho -, os garçons e catadores de pratos das mesas que o fazem sem pensar, mesmo antes de se terminar o jantar servido, etc.

E assim vou enumerando essa massa de “gente” que se justifica ser humano, cumpridores dos deveres, vendedoras de seu tempo de vida em nome do salário pra consumir mais coisas e mais matérias, sem pensar se de fato é preciso.

E mais alguns carros são lançados na cidade, todas com seus pilotos automáticos, atrás de uma fila, indo para o trabalho - cumprindo suas agendas. E tome mais poluição, mais venenos em todos os sistemas, mais desequilíbrios nas cidades, nas casas, nas relações todas, até a total sacudida do planeta.

E segue-se o rumo “natural” das coisas que é apenas a falta de senso. Já nem digo mais que seja bom ou ruim, mas algum senso.

O “eu não quero nem saber porque tenho mais o que fazer” virou um jargão altamente aceito e justificável diante de toda e qualquer omissão. Não se pára mais pra ver o custo benefício de nada. Sacrifica-se mais alguma coisa, mais uma hora, mais um diálogo, mais uma presença, mais uma refeição decente e natural, em nome do correr pra matar um leão. E todo mundo achando isso o máximo. Seguir a agenda, cumprir a rotina - parece coisa de ronda de soldado de plantão que nem sabe o que está fazendo na guerra, e porque está lá, mas está cumprindo seu dever.

Eu fico aparvalhada, catatônica quase, diante da constatação desse programa destrutivo que degrada toda a espécie e a condena à extinção e a todas as outras. A ambição do fazer, o correr atrás de algo, o ter que fazer por fazer, virou mais do que um hábito ou um ato de sobrevivência: trata-se de uma endemia coletiva, que nada soluciona. Não acaba com a fome do planeta, não apazigüa os ânimos de nenhum ser respirante, não traz nenhum bem efetivo pra ninguém em nenhum lugar, apenas implementa a fome de ganhar, de investir em mais ilusões pra tentar saciar o vazio que consome internamente cada um e por isso há que se ocupar o tempo com qualquer coisa pra não encarar a terrível forma de escolher o próprio destino.


Escolhas... Quem está escolhendo o que diante do fato de cumprir as agendas e as rotinas? Quem ousa quebrar com seus próprios vícios pra escutar o grito silencioso de alguma virtude?


Os dias passaram a correr mais rápido, parecem seguir o ritmo acelerado da fome insaciável de tantos de ter mais uma graninha pra comprar mais uma bugiganga. E por que as horas se escasseiam, há que tomar pilulas mais, vitaminas a mais, ginásticas a mais, pra continuar a manter a corrida desenfreada em busca de alcançar o pique que é o portal pra destruição de todos nós.

Soube recentemente que falta apenas quatro anos pra grande virada... Do jeito que vamos, a Terra nos vai paralizar a todos, para sua grande sacudida no final de 2012.

Enquanto isso... Ooooohhhhhmmmmm!


Imagens: Desk Covered in Sticky Notes, Kate Mitchell; Dressmaker's Notebook, A. Inden

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bem no alvo, Sandra! Você conseguiu colocar em palavras um incômodo que eu estava sentindo há algumas semanas: uma sensanção de que as pessoas estavam inventando coisas pra fazer porque não saberiam o que fazer se ficassem paradas um pouquinho.