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ALÉM DOS QUINTAIS >> Carla Dias >>


Falando com um amigo, para parabenizá-lo pelo seu aniversário, lamentei que a celebração da chegada dele ao mundo se desse em momento tão complicado. Então, ele me lembrou de uma das marcantes frases de Gabriel García Márquez: O amor se torna maior e mais nobre na calamidade.

Não consegui evitar de refletir sobre um dizer tão poderoso, e que, ao mesmo tempo, despertava em mim muitos questionamentos. 

Qual é o tom desse amor?

Qual é o alcance desse amor?

Qual é a profundidade desse amor?

Gabriel García Márquez me levou ao primeiro mergulho, há muito tempo, enquanto eu me perdia nas páginas do seu “Cem anos de solidão”. Na escrita dele, eu descobri que o amor pode ser volúvel, influenciável, panfletário, falseado, egoísta. Amor pode ser catártico, melancólico, rancoroso, distraído, flertar com o ódio e também ser tudo aquilo de fantástico, extasiante, profundo e benevolente que sentimos ao somente pronunciarmos a palavra.

Amor. Αγάπη. Ljubav. Kärlek. Amour. любовь. Kærlighed. Liefde. Tình yêu. Amore.

Ainda assim, ele é capaz de se tornar maior e mais nobre na calamidade. Eu acredito nisso.

Falar sobre amor, em períodos complexos, como o que vivemos, é se referir a muitas das suas camadas, dos seus subtítulos, dos seus pseudônimos, das suas armadilhas. Amor não é exclusivamente romance. Amor não é só incondicional. Amor não é somente nobre. Amor não é apenas amor.

Às vezes, amor é um ato de coragem, um momento de elucidação, uma verdade defendida, um compartilhamento com aqueles estranhos que, assim como você, são seres humanos encarando o mundo ao lidarem com seus sonhos vãos, com os vãos que a vida desenha para cada um de nós. Onde enroscamos nossos pés, vez ou outra. Onde descobrimos nossos caminhos, quando não nos distraímos. Onde abandonamos certezas e adotamos o novo.

Talvez seja hora de tirar o amor da prateleira da ficção, porque ele também pode ser calado pelo terror e pela histeria. Há tempos em que ele se transforma em tudo aquilo que não podemos mudar, mas, ainda assim, permite que nos encontremos nos seus arredores, para compreendermos que acontece de ser inevitável, e, assim, resta-nos aprender a lidar com o que vem depois.

O que vem depois pode ser melhor do que o antes.

Há momentos em que o amor tem de lidar, de forma solidária e gentil, com as tragédias que vestem a nossa realidade. Ele ultrapassa nossos quintais, espalha-se por lugares e pessoas que não conhecemos. É quando compreendemos que o mundo é mais do que a vida que levamos, do que as paisagens que observamos, do que as pessoas que permitimos que façam parte de nós. 

Há quem acredite que o amor é bobagem, que fragiliza e imbeciliza quem o sente. Mas não foram somente os livros que me ensinaram que ele se fortalece nas calamidades, enquanto nos fortalece, depois de nos inundar de emoções que nos fazem sentir inaptos a lidar com as mazelas da vida. 

Fortaleça o seu amor ao olhar além, ao se dar conta de que, em momentos como o que vivemos, precisamos, mais do que nunca, um do outro. Porque há tempos em que o amor, no atrevimento que lhe cabe, pede por provas de que seu trabalho anda sendo feito a contento, e nos coloca em situações das quais jamais sairemos se não o sentirmos sem fronteiras, desculpas, medo.

Se não nos atrevermos a ir além dos nossos quintais.


Imagem: Open Door to the Garden © Konstantin Andreevich Somov


carladias.com

Comentários

Albir disse…
Oportuno amor terapêutico no tempo da dor.
Carla Dias disse…
Em pequenas doses, Albir, para curar com alento.