Pular para o conteúdo principal

UM SORRISO NUMA BOLHA DE SABÃO >> Cristiana Moura



E era tanta a alegria num rosto só! Gabriela, num sorriso que não cabia em seu tamanho pequeno de menina com dois anos incompletos, brincava com a leveza efêmera das bolhas de sabão. Dera eu saber lidar assim com o que simplesmente se desmancha na minha frente. Dera eu. 

Vez por outra acordo na madrugada. Insônia quando a gente não briga com ela é assim: um emaranhado de palavras, imagens, desejos como os de Gabi, voando em bolhas de sabão. 

A menina cresceu e, no corpo de moça, às alegrias se juntaram seus delírios sãos. Queria adentrar os céus carregada pelas bolhas da infância até adormecer dependurada no sorriso da lua que mal começara a crescer. Deveria também ter sonhos de raízes adentrando na terra. Não. Ela se negava a manter os pés fincados ao chão — só queria o ar. 

Houve um dia em que acordou muito depois do Sol. Perdera a hora. Já não era tão menina. Já não era tão moça. Olhou no espelho e lhe faltavam os sorrisos. E foi assim dia após dia. Era uma tal timidez nos lábios, como se alegria fosse que nem chave que a gente esquece pelos cantos. Gabriela havia deixado um pedaço de sorriso em cada encontro fugaz. Esvaziou-se de si. Deixou-se em infância e juventude remotas. 

Era dia de quinta-feira, um dos mais atribulados. Acordou. Escovou os dentes. Sentiu, na pele, o Sol recém-nascido como há tempos não fazia. Tomou banho. Comeu suas frutas e cereais. Saiu como em todos os dias. No trânsito caótico, o senhor no carro de trás buzinava freneticamente como se quisesse que ela ultrapassasse o sinal vermelho e ele pudesse fazê-lo também. Ela freava indiferente. O jovem adentrou a faixa de pedestres como quem chega na própria casa. Passos lentos e longos. Era tanta a intimidade e um bem-estar à vontade que os olhos de Gabriela arregalaram-se. Ela, naquele momento, não sabia fazer uma coisa só: dirigia, ouvia o som das buzinas, preenchia o pensamento, simultaneamente, com a lista dos afazeres e a dos dissabores. Freou. Tudo parou. Nas mãos do homem-clown, com seus gestos leves e sua bola de cristal, o destino de Gabi era um sorriso não planejado no sinal fechado. E este sorriso lhe tomou o corpo numa alegria leve que lhe acompanhou por todo o dia. 

A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano. Ouvi dizer que Gabriela, agora, quer costurar os pedaços do dia a dia com linhas de névoa e assoprar. Assoprar até virar uma bolha leve. 


P.S.: Esta crônica integra o projeto "CRÔNICA DE UM ONTEM".

Comentários

Sandra Modesto disse…
Sensação maravilhosa eu senti. Daquele tipo de texto que a gente lê e devora as estradas da narrativa. Parabéns, feliz dia da mulher! Abraços
Ana Cristina de Paula disse…
Que delícia viajar nas bolhas de sabão de Gabi e nas palavras da Cristiana!
Zoraya Cesar disse…
Espetáculo de leveza, beleza e poesia. Tem de entrar na Antologia. Simplesmente.
Nadia Coldebella disse…
Que lindo texto, que doçura! Adorei a forma como a arte a conduziu de volta para a alegria e amei ainda mais o final, ela assoprando os dias como sopramos uma bolha de sabão. Uma imagem muito delicada.
Não pude deixar de reparar na aquarela que ilustra tua crônica. A arte é sua? Linda, leve e intensa.
Abraço
Albir disse…
Quanta delicadeza! Parece o toque de uma bolha de sabão.
Carla Dias disse…
É preciso ter olhar solto, não? Porque há quem perca a oportunidade de se deslumbrar em meio caos, com acontecimentos feito o que Gabi presenciou e que lhe soltou o espírito daquele porão. Lindo texto, Cris.